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Defence for Emerging Countries

Suitabile and Original Military Architecture
Image: Shutterstock.

O ponto de partida de qualquer estratégia de defesa séria não é apenas o orçamento disponível, nem o inventário de equipamentos existentes. É a definição precisa da ameaça real. Não da ameaça imaginária, construída por inércia institucional ou fabricada por interesses importados, mas daquela que efetivamente coloca em risco a soberania, a integridade territorial, as infraestruturas críticas e a estabilidade de um país. É justamente aqui que muitos países emergentes tropeçam no primeiro desafio: organizar suas forças armadas antes de responder às perguntas essenciais. Contra que ameaça concreta é preciso se defender? Em que cenário essa ameaça poderia se materializar? Em qual horizonte temporal? Quais riscos já são atuais e quais ainda pertencem ao campo da possibilidade?

Sem essa definição prévia, o planejamento de defesa pode evoluir para três patologias recorrentes: compras dispersas, estrutura desequilibrada e doutrina desconectada da realidade. Em vez de estratégia, instala-se uma soma de preferências corporativas, símbolos de status, tradições obsoletas e decisões reativas. O resultado são forças armadas caras, mas não necessariamente eficazes; volumosas, mas pouco eficientes; equipadas, mas sem coerência operacional. Em defesa, o erro inicial raramente é apenas técnico. Ele é frequentemente conceitual e intelectual.

Essa exigência de clareza se tornou ainda mais urgente porque o ambiente estratégico contemporâneo é, por natureza, híbrido, volátil e multidimensional. A guerra convencional voltou ao centro da história com a invasão da Ucrânia, colocando em xeque a percepção  de que conflitos de alta intensidade entre exércitos regulares haviam se tornado improváveis. Ao mesmo tempo, a guerra tecnológica se expandiu rapidamente – drones, inteligência artificial, sensores, guerra eletrônica, sistemas autônomos –, enquanto a guerra econômica se consolidou como estado quase permanente, manifestando-se em sanções, disputas por cadeias críticas de suprimento, controle de energia, minerais estratégicos, dados e infraestrutura digital. A fronteira entre tempo de paz e tempo de guerra tornou-se mais diluída. O conflito moderno já não começa apenas quando exércitos cruzam fronteiras; começa quando se degradam redes, se sabotam sistemas, se bloqueiam insumos, se capturam dependências.

Nesse contexto, uma estratégia de defesa para países emergentes precisa partir de um princípio elementar: não tentar imitar a arquitetura militar das grandes potências, mas construir uma lógica própria de existência, dissuasão e resiliência. O erro clássico dos países médios e emergentes tem sido confundir a defesa nacional com miniaturização aspiracional de potências globais. Uma versão reduzida dos instrumentos de potências bélicas raramente serve aos objetivos. Precisam de uma arquitetura de defesa ajustada ao seu entorno geográfico, ao seu perfil de ameaças, à sua base industrial e à sua capacidade fiscal. Em outras palavras: menos imitação, mais adequação e originalidade.

A PRIMEIRA ESCOLHA ESTRATÉGICA: DEFESA POR NEGAÇÃO, NÃO DE PROJEÇÃO GLOBAL

Para a maioria dos países emergentes, o foco racional tende a recair sobre defesa territorial, proteção da infraestrutura crítica, controle do espaço aéreo e marítimo imediato, segurança de fronteiras, capacidade cibernética e resiliência institucional. Isso implica reavaliar a tentação de projeção de poder desnecessária. Uma marinha desenhada para ambições oceânicas distantes, uma força aérea organizada em torno de prestígio simbólico ou um exército baseado em massa pouco tecnologizada podem corresponder a narrativas nacionais, mas dificilmente respondem ao núcleo das ameaças reais.

Aqui entra uma alternativa estratégica central que muitos países emergentes poderiam examinar com mais seriedade: a defesa por negação. Em vez de buscar a capacidade clássica de enfrentar decisivamente um adversário maior, o objetivo passa a tornar a agressão custosa, incerta, lenta e politicamente desvantajosa. A questão passa a ser “como dificultar que um agressor mais forte alcance seus objetivos a um custo aceitável?”. Essa distinção é decisiva. Países emergentes raramente conseguirão competir em escala. Mas podem competir em fricção, custo baixo, atrito, complexidade e resiliência.

A defesa por negação favorece sistemas distribuídos, mobilidade, redundância, dispersão logística, inteligência persistente, capacidade de ataque de precisão relativamente barata, defesa aérea em camadas, proteção de infraestrutura e sobrevivência sob ataque. É uma lógica menos estética e mais eficaz. Não produz o mesmo brilho de grandes plataformas icônicas, mas produz algo mais importante: capacidade concreta de dissuasão.

A SEGUNDA ESCOLHA: ASSIMETRIA TECNOLÓGICA COMO MULTIPLICADOR CENTRAL

A guerra na Ucrânia tornou visível uma transformação mais profunda: plataformas baratas, quando conectadas a sensores, softwares, dados e comando eficiente, podem degradar meios muito mais caros. Drones de custo relativamente baixo passaram a desempenhar funções de vigilância, reconhecimento, ataque, correção de tiro, saturação de defesa e desgaste psicológico. Guerra eletrônica, spoofing, interferência de sinal, sensores distribuídos e munições guiadas passaram a pesar tanto quanto o número absoluto de blindados ou de aeronaves tripuladas.

Para países emergentes, a implicação é clara: a assimetria tecnológica deixou de ser opção complementar. Isso significa priorizar drones tanto táticos como operacionais e estratégicos; munições vagantes; guerra eletrônica; defesa anti drone; sensores distribuídos; comunicações resilientes; satélites e serviços espaciais comerciais; sistemas antinavio móveis; defesa aérea escalonada; softwares de comando e fusão de dados; capacidade cibernética ofensiva e defensiva; e integração entre ISR, fogo e mobilidade.

Mas convém ir além do repertório já mais conhecido. Há alternativas adicionais que merecem exame:

Primeiro, o investimento em sistemas não tripulados de superfície e subsuperfície, especialmente para países com litoral relevante. O debate costuma ficar concentrado em drones aéreos, mas meios navais não tripulados  protegem portos, monitoram rotas, reforçam a vigilância costeira e ampliam a negação marítima a custos menores.

Segundo, o uso de constelações comerciais e infraestrutura privada de observação, comunicação e geolocalização. O acesso a capacidades espaciais já não depende exclusivamente de programas soberanos completos. Um país emergente pode construir parte relevante de sua consciência situacional com arranjos mistos, contratos comerciais, parcerias tecnológicas e integração nacional de dados.

Terceiro, impor ao adversário custos cada vez mais insustentáveis. A tecnologia pode ser pensada para obrigar o adversário a gastar desproporcionalmente mais para neutralizar o sistema de defesa. Essa lógica é particularmente útil para países com restrição orçamentária estrutural.

Quarto, a construção de uma arquitetura de defesa inteligente, não baseada na tradicional  acumulação de gente e plataformas, mas sim no uso racional de sensores, meios de comunicação, capacidade de processamento, redundância logística, manutenção eficiente, produção de munição, drones baratos e capacidade de reposição rápida.

A TERCEIRA: AUTONOMIA SELETIVA, NÃO AUTARQUIA ILUSÓRIA

Autonomia total é ficção. Dependência total é vulnerabilidade. Entre essas duas  posições extremas, existe uma via estratégica mais madura: autonomia seletiva. Nenhum país, nem mesmo uma grande potência, domina integralmente todos os componentes de sua defesa. A questão não é produzir tudo, mas controlar os gargalos certos.

Para países emergentes, isso significa identificar o que precisa ser nacionalizado, o que pode ser compartilhado, o que pode ser adquirido externamente com baixo risco e o que jamais pode ficar integralmente nas mãos de terceiros. Os segmentos prioritários tendem a ser munição, software e arquitetura digital, manutenção e modernização, comunicações seguras, integração de sistemas, capacidade de reparo em crise, produção de peças críticas e combustível, criptografia e soberania de dados. 

Essa discussão precisa ser ampliada. A autonomia seletiva não deve se limitar à indústria militar clássica. Ela deve incluir reserva industrial dual, ou seja, a capacidade de converter partes da economia civil para apoio à defesa em cenário de crise. Países emergentes deveriam mapear, com muito mais precisão, quais empresas civis podem ser mobilizadas em regime de contingência, quais cadeias são críticas, quais insumos são insubstituíveis e quais dependências externas podem paralisar a defesa sem um único disparo.

Outra iniciativa relevante é a criação de estoques estratégicos e reservas tecnológicas, não apenas de combustíveis ou munição, mas também de chips, componentes, fibras ópticas, peças de reposição, sistemas de navegação e comunicação alternativos e infraestrutura redundante. Em muitos casos, a vulnerabilidade central de um país não estará na ausência de armas, mas na incapacidade de sustentar operações.

A QUARTA: PREVISIBILIDADE E ORÇAMENTO ORIENTADO POR EFEITO

Um dos maiores equívocos no debate sobre defesa em países emergentes é imaginar que tudo depende apenas de mais gastos. Em muitos casos, o problema central não é a insuficiência de recursos, mas a sua má composição, sua rigidez institucional e sua baixa previsibilidade. A Defesa não funciona bem sob ciclos erráticos de contingenciamento. Projetos estratégicos exigem horizonte plurianual, estabilidade de encomendas, continuidade de treinamento, reposição programada e capacidade de sustentar inovação ao longo do tempo.

Como já dito acima,  o orçamento de defesa precisa ser estruturado por efeito estratégico esperado, e não por tradição burocrática ou equilíbrio político interno entre forças. Essa mudança é muito mais profunda do que parece. Significa sair da lógica de orçamento por insumo e migrar para orçamento por capacidade: negar acesso marítimo, proteger infraestrutura energética, garantir defesa cibernética, assegurar mobilização rápida, sustentar operação prolongada, garantir consciência situacional etc.

Uma alternativa adicional especialmente relevante é a criação de fundos estratégicos blindados para projetos críticos, separados do gasto rotineiro com folha, custeio e manutenção ordinária. Outra é o uso inteligente de encomendas tecnológicas, contratos de inovação, compras públicas voltadas à prototipagem e mecanismos que conectem defesa ao ecossistema nacional de pesquisa aplicada. Sem isso, o gasto em defesa tende a ser absorvido por estruturas herdadas, não por capacidade futura.

A QUINTA: DEFESA COMO ECOSSISTEMA NACIONAL, NÃO COMO SETOR ISOLADO

Talvez a transformação mais importante seja esta: a defesa deixou de ser apenas um domínio militar-industrial e passou a ser um ecossistema nacional de tecnologia, dados, infraestrutura, inteligência e adaptação. A linha que separava o setor militar do setor civil tornou-se mais porosa. Satélites comerciais, IA, análise de dados, computação em nuvem, software, logística digital, plataformas autônomas, redes de comunicação, cibersegurança e startups passaram a ter peso estratégico direto.

Para países emergentes, isso impõe uma revisão radical da forma de pensar segurança estratégica. A Defesa não pode mais ser tratada como assunto exclusivo de quartéis, arsenais e grandes fabricantes. Ela depende de universidades, centros de pesquisa, empresas de software, operadoras de telecomunicações, produtores de energia, integradores logísticos e infraestrutura digital. Países que não conseguirem organizar esse ecossistema terão forças armadas formalmente existentes, mas tecnologicamente defasadas.

Há aqui alternativas adicionais decisivas:

Primeira: criar polos de inovação em defesa dual, aproximando militares, pesquisadores, engenheiros e empreendedores em torno de problemas concretos, sem hierarquizações entre civis e militares.

Segunda: desenvolver uma reserva nacional de talentos tecnológicos, com programas que permitam mobilizar rapidamente especialistas nas novas tecnologias, que respondam criticamente aos desafios concretos do país no novo ambiente geopolítico. 

Terceira: ampliar o uso de simulação, jogos de guerra, exercícios integrados e laboratórios de doutrina, que realmente testem capacidades, doutrinas e lógicas operacionais e não simplesmente reproduzam premissas não verificadas. Muitos países emergentes sofrem menos por falta de equipamento do que por falta de aprendizagem crítica baseada em certificações operacionais reais e não puramente formais.

Quarta: tratar dados em ambiente digital como ativos estratégicos de defesa, tão críticos quanto bases e arsenais nas guerras contemporâneas.

Quinta: a dimensão mais negligenciada: resiliência nacional total. Muitos países ainda pensam na defesa como sinônimo de capacidade militar de combate. Isso é insuficiente. A guerra contemporânea tende a testar não apenas as forças armadas, mas a capacidade do país de continuar funcionando sob estresse. 

Por isso, países emergentes deveriam examinar com muito mais atenção o conceito de resiliência nacional total. Isso inclui:

  • redundância de infraestrutura crítica;
  • protocolos de continuidade de governo;
  • proteção de redes energéticas e digitais;
  • reservas logísticas;
  • capacidade de mobilização industrial;
  • treinamento de resposta a ataques híbridos;
  • defesa civil articulada com segurança nacional;
  • proteção contra desinformação em larga escala.

Uma defesa moderna não consiste apenas em impedir que o inimigo avance. Consiste também em impedir que o país colapse sem invasão formal.

O ERRO CENTRAL A EVITAR: PRESTÍGIO ESTRATÉGICO SEM UTILIDADE OPERACIONAL

Para países emergentes, a estratégia racional não é buscar paridade com grandes potências, mas construir uma combinação crível de: clareza de ameaças + defesa por negação + assimetria tecnológica + autonomia seletiva + + resiliência nacional + ecossistema de inovação.

Essa talvez seja a fórmula mais realista de dissuasão no século XXI.

Porque, no fim, a pergunta decisiva não é se um país emergente pode se tornar militarmente comparável a uma grande potência. A história sugere que raramente essa comparação é o objetivo certo. A pergunta correta é outra: ele consegue tornar-se difícil de intimidar, caro de agredir, complexo de paralisar ou resistente o suficiente para preservar sua soberania?

Isso talvez não garanta uma defesa perfeita, mas uma defesa pensada. O que já é uma vantagem estratégica considerável. 


* Este texto é uma versão em português de “A Realistic Defence for Emerging Countries”, originalmente publicado em inglês em 17 de abril de 2026 pelo King’s College London, disponível em: https://www.kcl.ac.uk/a-realistic-defence-for-emerging-countries.

 

Recebido: 3 de junho de 2026

Aceito para publicação: 3 de junho de 2026

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