Carajás Roundtable 2026 debate geopolítica, transição energética e o futuro da mineração

  • 07 julho 2026

O Carajás Roundtable 2026, promovido pela Vale em parceria com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), reuniu de 6 a 8 de julho especialistas, lideranças empresariais, pesquisadores, embaixadores e autoridades públicas para debater os temas centrais do futuro da mineração e a inserção estratégica do Brasil na agenda global. Em sua segunda edição, o fórum propôs um ambiente de diálogo para enfrentar os novos desafios do setor diante das transformações tecnológicas, das mudanças geopolíticas e da agenda global de descarbonização.

Ao longo dos três dias, a programação foi estruturada em torno de quatro eixos: 

  • Geopolítica, com os impactos das relações internacionais na segurança de suprimentos; 
  • Descarbonização, com metas e soluções para a transição energética; 
  • Minerais críticos e seu papel estratégico na economia global; 
  • Mineração do futuro, com foco em inovação, tecnologia e sustentabilidade.

Na abertura, Gustavo Pimenta, CEO da Vale, tratou a descarbonização como um dos maiores desafios da geração atual, lembrando que 8% das emissões globais de CO2 vêm da indústria do aço, setor diretamente conectado à mineração. Para ele, o Brasil tem uma oportunidade única de liderar essa transição ao combinar fontes renováveis de energia com o potencial de produção de hidrogênio verde, condições que podem viabilizar a chamada "rota do aço verde".

"O Brasil, por exemplo, tem uma oportunidade única com renováveis, potencialmente hidrogênio, indo até o aço verde", afirmou Pimenta.

Na sequência, Luiz Idelfonso, Vice-Presidente do Conselho Curador do CEBRI, destacou o momento privilegiado do Brasil diante das transformações da economia global impulsionadas pela transição energética e pela crescente demanda por minerais críticos. Segundo ele, o país reúne uma base mineral diversificada, uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e condições únicas para contribuir com a segurança das cadeias globais de suprimento, mas essa posição também traz responsabilidades adicionais.

"A competitividade da mineração no futuro, e em grande medida já no presente, será determinada pela capacidade de produzir melhor: com inovação, menor intensidade de carbono, maior eficiência, agregação de valor, respeito ao meio ambiente e geração de desenvolvimento para os territórios onde essa atividade acontece. Para o Brasil, isso significa pensar a mineração de forma integrada, como parte de uma estratégia nacional de competitividade.”

 

 

Geopolítica

Na primeira mesa-redonda "O cenário geopolítico global e a nova era da transformação industrial", o Embaixador Marcos Caramuru, Conselheiro Consultivo e Internacional do CEBRI, destacou que o mundo atravessa um momento de instabilidade marcado pela redefinição de alianças e pela crise do multilateralismo, com organizações internacionais cada vez menos capazes de gerar consensos baseados em regras.

"A crise das organizações internacionais é, em essência, uma crise de valores. O mundo deixará de funcionar predominantemente com base em regras e passará, cada vez mais, a operar segundo a lógica da política de poder."

Segundo Caramuru, esse cenário se reflete também na economia, com o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC), cadeias de suprimento instáveis e o retorno da política industrial mesmo entre países desenvolvidos, exigindo que empresas tomem decisões estratégicas com menos previsibilidade e mais riscos interdependentes. 

“Nesse contexto turbulento, o setor mineral passou a desempenhar um novo papel e adquiriu uma dimensão estratégica muito maior”, explicou o Embaixador.

Principais conclusões do debate:

  • A geopolítica passou a ser uma variável central para os negócios: as empresas precisam incorporar os riscos geopolíticos às decisões de investimento, às estratégias para as cadeias de suprimentos e ao planejamento de longo prazo.
  • É necessário reduzir a dependência de fornecedores, clientes e mercados únicos, diversificando parcerias e fortalecendo as cadeias de suprimentos.
  • Os minerais críticos tornaram-se ativos estratégicos: recursos como o cobre estão cada vez mais associados à inteligência artificial, à transição energética, à política industrial e à segurança nacional.
  • O principal desafio não é a disponibilidade de minerais, mas o desenvolvimento de capacidades de processamento, refino e industrialização que agreguem valor além da etapa de extração.
  • A China continua ocupando posição central na mineração global: as empresas precisam equilibrar a continuidade de suas relações com o país ao mesmo tempo em que gerenciam as dependências das cadeias de suprimentos e os riscos geopolíticos.
  • O planejamento por cenários tornou-se essencial: as empresas precisam fortalecer sua capacidade de antecipar incertezas, monitorar riscos e responder rapidamente a eventos inesperados.

 

Minerais Críticos

Seguindo a programação, a mesa "O papel estratégico dos minerais críticos na nova ordem geopolítica global", moderada por Clarissa Lins, Conselheira Consultiva e Internacional do CEBRI e Sócia-Fundadora da Catavento, aprofundou a discussão sobre minerais como lítio, níquel, cobalto, cobre e terras raras, hoje no centro das atenções diante das transformações da economia global. Além da transição energética, os minerais críticos vêm ganhando importância crescente do ponto de vista da segurança nacional, já que os países competem para garantir acesso aos recursos necessários à produção de tecnologias de defesa. 

"Os minerais críticos estão no centro das atenções diante das transformações em curso na economia global, impulsionadas pela transição energética, pela competição tecnológica e pelo aumento da fragmentação geopolítica. Esses minerais são essenciais para as economias modernas, para tecnologias avançadas, como as tecnologias limpas e a inteligência artificial, e também para a segurança nacional", disse.

A principal mensagem do painel é que os minerais críticos deixaram de ser uma questão de commodities para se tornarem um tema estratégico de grande relevância geopolítica. A demanda existe e está aí, seja pela transição energética, pela defesa e segurança nacional ou pelo uso na cadeia agrícola, cabendo agora identificar desafios, oportunidades e gargalos. 

As oportunidades estão em construir novas cadeias de valor e parcerias, atrair financiamento e fortalecer a confiança entre empresas mineradoras, governo e sociedade, enquanto os desafios passam pela estabilidade das cadeias produtivas e pela diversificação de fornecedores, exigindo capital, trabalho, conhecimento e tecnologia.

 

A programação também incluiu visitas técnicas ao BioParque e à Mina de Autônomos, onde operam os gigantescos caminhões fora de estrada do Complexo de Carajás, da Vale, capazes de transportar até 400 toneladas de minério por viagem. As visitas ofereceram aos participantes uma visão sobre os avanços tecnológicos e as iniciativas de sustentabilidade aplicadas à operação em Carajás.

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