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Crustacean Nations: The Geopolitics of Survival under the Donroe Doctrine

Contemporary Manifestation of the Historical Link Between Protectionism and Imperialism

Abstract

This paper discusses the Donroe Doctrine as a contemporary manifestation of the historical link between protectionism and imperialism. Drawing on Karl Polanyi’s metaphor of crustacean nations and Susan Strange’s distinction between structural and relational power, it argues that the US has abandoned institutional power in favor of direct coercion. For Brazil, sovereign survival will depend on leveraging its economic interdependence as relational counterpower.

Keywords

Monroe Doctrine; geopolitics; Karl Polanyi; Susan Strange; Brazilian foreign policy
Image: Shutterstock

O ano de 2026 começou com os Estados Unidos invadindo a Venezuela para capturar Nicolás Maduro, ameaçando anexar a Groenlândia (território dinamarquês e, portanto, da OTAN), mantendo tarifas generalizadas sobre aliados e adversários, e tendo bombardeado instalações nucleares iranianas seis meses antes. A administração Trump retirou os EUA da OMS e do Acordo de Paris, fechou a USAID e reduziu drasticamente o financiamento às agências multilaterais. Com sua National Security Strategy de 2025, o Corolário de Trump formalizou a Doutrina Donroe[1] – uma versão contemporânea e mais agressiva da Doutrina Monroe, que trata o hemisfério ocidental como esfera de influência americana a ser consolidada antes de qualquer confrontação direta com a China.

Em 2021, publiquei um artigo pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), parte de um projeto apoiado pela Konrad-Adenauer-Stiftung (KAS), analisando a economia política das estratégias de inovação tecnológica (Penna 2021; ver também Penna 2020). Usando o conceito de duplo movimento de Polanyi – a oscilação entre períodos de liberalização de mercados e períodos de proteção social e intervenção estatal – argumentei que estávamos entrando em uma fase de retorno à política industrial ativa, renacionalização de cadeias de valor, busca por soberania tecnológica e declínio da governança multilateral. A pandemia havia catalisado tendências já em gestação desde a crise financeira de 2008 e a ascensão da China.

O diagnóstico estava correto. As tarifas generalizadas de Trump, os controles de exportação sobre semicondutores, a política industrial explícita (que Biden já havia aprofundado com o CHIPS Act e o IRA) – tudo isso confirma a virada polanyiana que o artigo identificava.

Meu otimismo moderado quanto à possibilidade de inércia institucional do liberalismo e do multilateralismo mostrou-se, entretanto, equivocado. No artigo de 2021, havia uma esperança implícita de que forças liberais-multilaterais ofereceriam alguma resistência à ruptura institucional, especialmente no âmbito europeu. Havia a expectativa de que a competição EUA-China seria custosa e, portanto, ocorreria dentro de certos limites – disputas comerciais, guerras tecnológicas, mas não intervenção militar direta em Estados soberanos nem ameaças de anexação territorial contra aliados.

A Europa está resistindo – a Operation Arctic Endurance na Groenlândia, as declarações conjuntas – mas de uma posição muito mais fraca do que eu imaginava. A dependência europeia dos EUA em matéria de segurança e tecnologia limita severamente o espaço para uma resistência real e efetiva.

O RETORNO DAS NAÇÕES CRUSTÁCEAS

Minha análise ignorou um aspecto fundamental do argumento de Polanyi em A Grande Transformação (Polanyi 2021 [1944]): o imperialismo do final do século XIX e do início do século XX foi, justamente, uma tentativa de contornar as limitações do mercado autorregulável. O contramovimento de proteção e soberania econômica vem acompanhado de expansionismo territorial – não como relação causal simples, mas como dinâmica simultânea e dialética. 

À medida que os países adotavam medidas protecionistas (tarifas, leis trabalhistas) para proteger suas sociedades da destruição causada pelo livre mercado, o comércio internacional ficava travado. Em palavras diretas: o protecionismo do século XIX andava de mãos dadas com o imperialismo. Estamos vendo uma versão contemporânea disso. Sob Trump, o que muda é a tática: esse vínculo reaparece agora combinado ao abandono deliberado do poder institucional em favor da coerção direta – inclusive sobre aliados.

Paradoxalmente – uma vez que, teoricamente, o livre-comércio deveria ser uma força anti-imperialista e pacífica – essa dinâmica enterra definitivamente a utopia neoliberal de que o comércio irrestrito seria um vetor de paz. Onde o mercado falha em garantir o acesso a terras-raras na Groenlândia ou ao petróleo na Venezuela, o poder militar entra para preencher o vácuo. O que observamos hoje é a concretização do alerta de Polanyi sobre as nações tornarem-se unidades crustáceas: entidades soberanas com carapaças duras e fronteiras militarizadas, cuja interação deixa de ser a troca fluida para se tornar o choque físico. A imagem, que Polanyi usava para descrever a fragmentação do sistema internacional após o colapso do padrão-ouro, aplica-se com força renovada ao presente. A Doutrina Donroe é a manifestação máxima dessa “crustaceanização”.

Por fim, rompe-se o último dique de contenção identificado por Polanyi: a haute finance. Durante a Paz dos Cem Anos, o capital financeiro internacional atuou como um freio às ambições imperiais, moderando conflitos para preservar o valor dos ativos e a fluidez do câmbio. Não que a alta finança fosse neutra – tinha interesses próprios e os perseguia implacavelmente. Ocorre que esses interesses coincidiam com a moderação de conflitos, que destroem ativos, interrompem fluxos comerciais e criam instabilidades monetárias. Em 2026, essa coincidência se desfez e a função moderadora foi drasticamente enfraquecida. O sistema financeiro, longe de ser um apaziguador supranacional, foi instrumentalizado como arma geopolítica. A expropriação de reservas, o uso do dólar como instrumento coercitivo e a fragmentação dos sistemas de pagamento evidenciam que a finança perdeu seu papel de árbitro relativamente autônomo da política interestatal. Sem o amortecedor financeiro e com o mercado travado pelo protecionismo, o caminho para um conflito hegemônico direto está, tragicamente, desimpedido.

Ainda que os movimentos e declarações de Trump choquem alguns, não deveriam surpreender, pois são coerentes com a grande doutrina estratégica estadunidense. Conforme aponta Padula (2025), desde Mahan e Spykman, os EUA tratam o controle do Grande Caribe (a América Mediterrânea) e das ilhas transoceânicas como imperativos de segurança – um padrão que remonta à anexação do Havaí e hoje se projeta sobre a Groenlândia.[2] A Venezuela sempre foi um enclave estratégico no arco norte sul-americano; a Groenlândia, uma posição avançada no Atlântico Norte.

Essa lógica de segurança militar é indissociável de uma dimensão geoeconômica crucial, ainda que esta permaneça subordinada ao imperativo geopolítico. O controle direto sobre a Groenlândia visa garantir as terras-raras essenciais para a autonomia na produção de semicondutores e baterias avançadas; a intervenção na Venezuela busca assegurar reservas de petróleo pesado em um mundo de cadeias de suprimento fragmentadas. A política industrial americana, portanto, deixou de ser apenas sobre subsídios e tarifas (como no CHIPS Act e no IRA) para se tornar uma política de apropriação física de insumos. Se o recurso econômico é o meio, a negação desses recursos à China e a autossuficiência da Fortaleza América são o fim.

A APOSTA NO PODER RELACIONAL

Pode-se argumentar que, por trás desses movimentos aparentemente erráticos, há um fio condutor estratégico de reafirmação – senão de recuperação – do poder global dos Estados Unidos. Se Polanyi nos oferece a perspectiva histórica da estratégia, Strange nos oferece a lente[3] para dissecar a tática de Trump: a distinção entre poder estrutural e poder relacional (Strange 1988; 1987).

O poder estrutural é a capacidade de moldar as estruturas em que outros atores operam – definir as regras do jogo que conformam as condições de segurança, produção, crédito e conhecimento em que a política internacional se desenrola. É o poder que os Estados Unidos construíram e mantiveram desde a Segunda Guerra Mundial e a Conferência de Bretton Woods: FMI, Banco Mundial, GATT/OMC, OTAN, sistema de alianças, regime de propriedade intelectual e mesmo as Nações Unidas. Esse poder é multiplicador: permite a projeção de influência a um custo relativamente baixo e cria dependências de origem e aprisionamentos que favorecem quem desenhou as regras.

O poder relacional, por outro lado, é mais direto: a capacidade de fazer com que outro ator faça algo que, de outra forma, não faria, por meio de coerção, ameaça ou recompensa. É o poder do mais forte sobre o mais fraco em cada interação específica.

Trump está deliberadamente abandonando o poder estrutural-institucional em favor do poder relacional puro. A saída de organizações multilaterais, o desprezo por alianças históricas, as ameaças diretas a aliados, a própria incursão na Venezuela como demonstração de força – tudo isso representa uma troca que a maioria dos analistas consideraria irracional do ponto de vista dos interesses americanos de longo prazo. Mas a aposta parece ser que o poder institucional já estava em erosão, seja pela ascensão da China, pelo desgaste das próprias instituições, ou pela percepção doméstica de que os EUA pagavam a conta sem retorno proporcional. Há, portanto, dois níveis de análise: no plano estrutural, as instituições já vinham perdendo eficácia; no plano da agência, Trump optou por acelerar esse processo em vez de tentar revertê-lo, apostando em capitalizar a vantagem militar e econômica enquanto ela persiste de forma inequívoca.

O problema com o poder relacional puro é que exige manutenção constante. Cada interação precisa ser reafirmada, seja por meio de ameaça, seja por meio de recompensa. Não há inércia institucional trabalhando a seu favor. E cria incentivos para que outros atores busquem alternativas: exatamente o que a China e, de certa forma, o grupo dos BRICS oferecem, ainda que de forma imperfeita.

Mais grave: o poder relacional baseado na coerção militar funciona enquanto não há resistência séria. A Venezuela não tinha como resistir. A Groenlândia, protegida pela OTAN (da qual os EUA são o pilar), apresenta um paradoxo que pode destruir a própria aliança. E países como o Brasil, que não são nem aliados incondicionais nem inimigos declarados, ficam em uma posição desconfortável – qualquer movimento não-alinhado pode ser interpretado como um desafio.

O que se pode esperar como desdobramento deste cenário? No plano internacional, a fragmentação se acelera. A ordem liberal institucional não será substituída por uma ordem sino-equivalente. A China parece não ter interesse nem capacidade de oferecer bens públicos globais na mesma escala que os EUA ofertaram ao longo das últimas oito décadas. O mais provável é um sistema mais transacional, com blocos regionais menos integrados, e o uso cada vez mais frequente de coerção econômica e militar sem cortinas de fumaça.

IMPLICAÇÕES PARA O BRASIL

Para o Brasil e a América do Sul, os tambores da guerra soam cada vez mais de perto. A intervenção na Venezuela estabeleceu um precedente. A Doutrina Donroe é explícita quanto à manutenção do hemisfério livre de incursões estrangeiras hostis – e a definição de hostil é prerrogativa de Washington. A presença chinesa na infraestrutura e no comércio na região será cada vez mais vista como uma ameaça. A lógica territorialista da geoestratégia clássica dos EUA não exclui o Brasil.[4]

Diante dessa pressão, o Brasil conta com a dissuasão de sua própria geografia político-econômica: é um país vasto demais para intervenções diretas e suficientemente integrado globalmente para ser tratado como um pária. O fracasso da tentativa de sobretaxar produtos brasileiros, que obrigou a Casa Branca a um recuo pragmático, prova que a interdependência econômica ainda serve de blindagem. Contudo, é preciso realismo: nossa estatura geoeconômica atual oferece alguma proteção, mas não imunidade geopolítica.

O espaço para uma política externa independente está se estreitando. O dilema brasileiro ultrapassa a velha dicotomia entre alinhamento e autonomia. Em um mundo de nações crustáceas e de poder relacional puro, a neutralidade deixa de ser escudo diplomático para se tornar um alvo estratégico. Washington não exigirá mais apenas preferência comercial, mas também submissão logística e territorial. A queda da Venezuela provou que o maior poderio militar da América do Sul não garante soberania diante da determinação imperial.

Para o Brasil, a resistência não virá da força bruta nem de uma diplomacia declaratória que apele a uma ordem multilateral que Trump deliberadamente desmantelou. Ela virá de uma estratégia de assimetria calculada que instrumentalize nosso potencial de interdependência. A Venezuela, apesar de seus arsenais, era uma economia isolada, sob sanções há anos, com inserção limitada nas cadeias produtivas globais. O Brasil é diferente: sua economia está entrelaçada com a americana e a global, e uma ruptura teria custos concretos para os próprios EUA. Nossa sobrevivência soberana dependerá de nossa capacidade de exercer um contrapoder relacional: tornar vital a cooperação brasileira – em energia, minerais críticos, alimentos, estabilidade regional – e proibitivamente caro o imperialismo americano.

Nesse cenário, a diplomacia brasileira adquire função distinta da tradição multilateralista que a consagrou. Não se trata de abandoná-la, mas de reorientá-la: menos tribuna, mais trincheira. O objetivo deixa de ser a construção de consensos normativos em fóruns esvaziados e passa a ser a tessitura paciente de compromissos bilaterais e regionais que elevem os custos de qualquer aventura coercitiva. Isso significa adensar a presença brasileira nas cadeias produtivas dos vizinhos, negociar acordos de investimento que criem fatos consumados, e manter canais abertos com Pequim e Bruxelas não como provocação, mas como demonstração de que o Brasil dispõe de alternativas. A diplomacia, nesse registro, não é substituto do poder econômico – é seu multiplicador.

Preservar a margem de manobra exige converter duas frentes em trincheiras: a profundidade de nossa inserção nas cadeias americanas e a densidade de nossa articulação regional. O Brasil deve se consolidar como o elo geoeconômico e político mestre que, se rompido, desorganiza não apenas o suprimento do norte, mas também o próprio hemisfério. Diante de um hegemon que decidiu devorar sua periferia, a única defesa eficaz é ser um crustáceo espinhoso demais para ser engolido.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor.

Notas

[1]Cunhado de forma satírica na capa do tabloide New York Post em janeiro de 2025, o termo foi posteriormente apropriado por Trump (em janeiro de 2026, após a operação militar na Venezuela) para descrever sua política de consolidação hegemônica no Continente Americano e Hemisfério Ocidental.

[2]Sobre um resumo dos paralelos históricos entre Havaí e Groenlândia, ver reportagem de Lino (2026).

[3]Devo ao professor de relações internacionais Juliano da Silva Cortinhas (UnB) o insight, levantado em conversa pessoal, sobre a aplicabilidade da distinção de Strange a este contexto.

[4]Em maio de 2025, o site DefesaNet revelou articulações de diplomatas republicanos para obter uso irrestrito do Aeroporto de Fernando de Noronha e da Base Aérea de Natal (DefesaNet 2025), sob o argumento de direito histórico de retorno operacional (o mesmo usado para reivindicar o Canal do Panamá). Juntas, essas posições completariam um arco de contenção atlântico que complementaria a rede americana de bases em Ascensão, São Tomé e Dakar.

Referências Bibliográficas 

DefesaNet. 2025. “EUA articulam acesso estratégico a Fernando de Noronha e Natal sob alegação de direito histórico e investimento bélico”. DefesaNet, 7 de maio de 2025. https://www.defesanet.com.br/geopolitica/agenda-trump/eua-articulam-acesso-estrategico-a-fernando-de-noronha-e-natal-sob-alegacao-de-direito-historico-e-investimento-belico/.

Lino, Flávio. 2026. “Fantasma do fim do Havaí independente assombra Groenlândia.” O Globo, 25 de janeiro de 2026. https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/01/25/fantasma-do-fim-do-havai-independente-assombra-groenlandia.ghtml.

Padula, Rafael. 2025. “Venezuela e Groenlândia: o plano maior dos EUA”. Outras Palavras, 14 de janeiro de 2025. https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/venezuela-e-groenlandia-o-plano-maior-dos-eua/

Penna, Caetano C. R. 2020. “Geopolitics and the Economics of Innovation”. CEBRI Policy Paper 2/5. Rio de Janeiro: CEBRI & KAS.

Penna, Caetano C. R. 2021. “A ‘New’ Political Economy of Technological Innovation Strategies in the Post-Pandemic World?”. CEBRI Policy Paper 3/4. Rio de Janeiro: CEBRI & KAS.

Polanyi, Karl. 2021 [1944]. A Grande Transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Contraponto.

Strange, Susan. 1987. “The Persistent Myth of Lost Hegemony”. International Organization 41 (4): 551-574.

Strange, Susan. 1988. States and Markets. London: Pinter Publishers.

Recebido: 30 de janeiro de 2026

Aceito para publicação: 2 de fevereiro de 2026

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