A historiografia política da ditadura militar brasileira tem uma longa trajetória, mesmo sem considerar as crônicas políticas feitas por jornalistas, que ao seu modo estabeleceram a cadeia de eventos e processos políticos que levaram ao golpe e ao recrudescimento do regime autoritário. O meio acadêmico se debruçou sobre o tema de maneira precoce quando a euforia golpista ainda estava no ar. Desde os anos 1960, quando Octavio Ianni publicou seu trabalho pioneiro, até os anos 1990, foram os sociólogos e cientistas políticos que estabeleceram uma historiografia política do golpe e do regime militar brasileiro. Os historiadores de ofício se concentraram em temas como a luta armada, as resistências culturais, a estrutura da repressão, mas, a rigor, até a virada do século, pouco produziram no campo da história política stricto sensu, ou seja, sobre as estruturas, instituições e personagens que protagonizaram o golpe e marcaram o regime como tal. Na minha opinião, essa historiografia feita pelas ciências sociais teve ganhos conceituais e analíticos importantes, mas deixou de captar nuances da vida política brasileira, negligenciou as contradições de certos atores, não captou as diacronias que atenuam a rigidez da perspectiva institucionalista, sem falar na pouca atenção dada às armadilhas interpretativas contidas nas fontes primárias. Afinal, uma das regras da historiografia é sempre desconfiar das suas fontes.
O trabalho do brasilianista Thomas Skidmore, publicado no final dos anos 1980, foi a primeira grande síntese propriamente historiográfica, feita por um historiador de ofício, sobre a ditadura brasileira. A bem da verdade, Hélio Silva – que não era formado em História, mas produziu uma grande obra na área, muito marcada pela narrativa factual e jornalística – já tinha publicado, em meados dos anos 1970, uma obra centrada no golpe. Mais tarde, a publicação da coleção monumental de Elio Gaspari foi outro marco na história política do golpe e do regime, mas sua perspectiva – apesar das fontes inéditas consultadas – se manteve refém de uma crônica jornalística palaciana, sem problematizar a perspectiva dos personagens que produziram os principais documentos utilizados, ou seja, a dupla Geisel-Golbery.
Entre as comemorações dos 50 e 60 anos do golpe de 1964, houve um certo boom editorial no campo da história política do período, com vários artigos e livros produzidos por historiadores como Carlos Fico, Jorge Ferreira, Rodrigo Patto, Heloisa Starling, entre outros nomes. A perspectiva desses autores era menos comprometida com as determinações econômicas sobre os processos políticos ou com as teorias institucionalistas que dominavam o debate que, em certa medida, desidratavam os conflitos, ideologias e projetos que estavam na raiz do golpe e da ditadura. Obviamente, nenhum deles se propunha a voltar para a miopia positivista que limitou a história a uma sucessão de fatos e nomes da vida política. Mas seus trabalhos demonstravam que, mesmo respeitando as determinações estruturais que regem a vida política e social, o campo da história política poderia ajudar a entender como as estruturas e instituições se traduzem em experiências e consciências dos atores sobre sua época, elemento fundamental para entender como a marcha da história é também marcada por derrotas e vitórias, omissões e ações, memórias e esquecimentos.
O livro de Felipe Loureiro, doutor em História Econômica e professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, dialoga com esta retomada da história política, propondo, entretanto, um olhar original construído a partir de fontes primárias inéditas, produzidas pelo governo estadunidense e pela diplomacia norte-americana. A obra se estrutura em 14 partes (um prólogo, 12 capítulos, um epílogo), ao longo das quais Loureiro constrói uma narrativa fluida e encadeada, cronologicamente, sem se limitar a uma exposição tediosa de fatos políticos e palacianos. A cobertura do livro faz jus às melhores sínteses historiográficas, indo do golpe de Estado até a redemocratização. Tendo em vista que a obra se enquadra em uma coleção cuja linha editorial é pautada pelo uso de fontes primárias pouco exploradas, pensadas como um corpus documental coeso, se compreende o porquê de alguns debates historiográficos estarem nas notas finais, com o texto principal focado na narrativa dos eventos e processos políticos vistos pelo olhar de diplomatas e espiões estadunidenses.
Se muitos dos eventos analisados ao longo do livro já eram conhecidos pela memória social e analisados pela historiografia pregressa, no livro de Loureiro eles ganham novas nuances, lacunas informativas são preenchidas, sobretudo em relação à montagem do regime e aos momentos de transição de governo dos generais que propiciam, na minha opinião, as melhores passagens analíticas da obra. A partir dos documentos norte-americanos, sempre pautados por informações de bastidores e escalas reduzidas de observação, as disputas políticas entre militares, entre militares e civis, entre Poder Executivo e Poder Legislativo, entre tecnocratas e empresários, entre a repressão e os movimentos sociais se revelam mais complexas do que se imaginava, para além dos jogos entre “linha dura” e “linha moderada”, entre governo e oposição. Neste sentido, o livro ajuda a superar a abordagens da ditadura muito pautadas por dicotomias analíticas simplistas, pelos enquadramentos da memória social hegemônica e por adjetivações pouco precisas sobre a natureza do regime. O autor, ao propor esta análise nuançada dos eventos, consegue não cair em relativismos e revisionismos que, muitas vezes, correm o risco de atenuar a natureza autoritária e violenta da ditadura.
O livro de Loureiro adensa um campo de estudo protagonizado por autores como Luiz Alberto Moniz Bandeira, Carlos Fico e James Green, com os quais dialoga. Ainda que a natureza da obra não seja teórica, tampouco de balanço historiográfico, algumas lacunas não passam despercebidas. A principal delas é o livro de Ruth Leacock sobre as relações entre os Estados Unidos e fase inicial da ditadura brasileira. A tese de André Godoy Ponce sobre a diplomacia presidencial de Médici e Nixon também poderia estar presente nas notas.
Como historiador refinado que é, Loureiro sempre coloca em perspectiva crítica a fala de diplomatas e espiões estadunidenses registrada em centenas de relatórios, memorandos e telegramas que compõem a impressionante quantidade de fontes primárias por ele mobilizadas. Mas em algumas passagens, senti falta de uma maior problematização da perspectiva dos diplomatas, principalmente em relação às políticas repressivas do regime. Idem para a documentação cuja origem é o serviço de inteligência, particularmente a CIA, cuja natureza heurística oscila entre análises mais diretas e argutas (se comparadas com as dos diplomatas) e narrativas que abusam nas suspeitas e veem conspirações que não existem. Aliás, é curioso o aumento relativo de fontes produzidas pela CIA em detrimento daquelas produzidas pelo corpo diplomático na análise dos anos finais da ditadura – é um aspecto apontado pelo autor, mas que poderia ser mais explorado e problematizado. As fortes tensões bilaterais geradas pelo Acordo Nuclear entre Brasil e Alemanha, muito presentes na documentação diplomática entrecruzada entre EUA, Brasil e Alemanha Ocidental, já disponíveis online, poderiam receber mais atenção, sendo citadas em poucas linhas no capítulo 11. O papel da CIA na reorganização do sistema repressivo brasileiro após o sequestro do embaixador estadunidense em 1969 é outro tema que também poderia ser mais aprofundado.
Essas observações sobre as pequenas lacunas do livro não diminuem sua importância como contribuição historiográfica e leitura obrigatória no campo das relações internacionais e da história política. “Olhares Ianques” ilumina arquivos e documentos pouco conhecidos, analisados sistematicamente na obra, que funcionam tanto como cotejo com perspectivas já estabelecidas, como sugerem novas agendas de pesquisa e informações sobre a história política da ditadura. Apesar das inúmeras “tarjas pretas” que esta documentação desclassificada ainda possui, Loureiro faz com que elas iluminem as penumbras do regime de generais e seus segredos de Estado.
Referências Bibliográficas
Loureiro, Felipe. 2026. Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos. Coleção Arquivos da Repressão. São Paulo: Companhia das Letras.
Recebido: 31 de julho de 2026
Aceito para publicação: 25 de agosto de 2026
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