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Marcos Azambuja e os limites irreverentes da memória

Resenha dos livros Memórias (CEBRI 2025) e Coletânea de textos (CEBRI & FUNAG 2026) de Marcos Azambuja

Capa FUNAG - Marcos Azambuja: coletânea de textos

“Os vivos nada podem ensinar aos mortos; os mortos, ao contrário, instruem os vivos”, afirmou Chateaubriand em suas memórias, ao lembrar o funeral do estadista Castlereagh. A frase certamente seria apreciada pelo embaixador Marcos Castrioto Azambuja, exímio na arte da curadoria da memória diplomática brasileira. Nascido em 1935, acedeu por concurso ao Itamaraty em 1958, aos 23 anos, no período dourado do governo Juscelino Kubitschek. Foi removido primeiro para a Missão do Brasil em Nova York e seguiu em postos de prestígio até chefiar as embaixadas em Buenos Aires (1992-1997) e em Paris (1997-2003). Foram, ao todo, 45 anos de carreira, todos vividos, como fez seu chefe Cyro de Freitas Valle, do Itamaraty e para o Itamaraty.

Azambuja é homenageado em duas obras recentes. A primeira, intitulada Memórias (2025), foi organizada por Alexandra de Mello e Silva, Monica Hirst e Gelson Fonseca Jr. e abrange três entrevistas, concedidas em 1997, 2009 e 2025. A segunda, a Coletânea de textos (2026), foi organizada por Gelson Fonseca Jr. e Bruno Zilli e reúne 64 trabalhos redigidos por Azambuja. O homenageado participou da ideação das duas obras, mas faleceu antes de vê-las concluídas.

O resultado final impressiona não apenas pelo conteúdo, mas pelo estilo que o sustenta: a capacidade rara de compor retratos em  miniatura, em frases breves, lapidares e levemente maliciosas. Um dos melhores perfis é dedicado ao polivalente escritor, político, jornalista, acadêmico e diplomata Gilberto Amado, considerado por Azambuja seu maître à penser. Como Chateaubriand, os livros oferecem uma memória de além-túmulo, e, nesses dois volumes, a admiração pelo brilhantismo do sergipano não ignora os graves defeitos desse grão-senhor que viveu intensamente, da era do Barão do Rio Branco à Ditadura Militar, sendo autor de cinco saborosos livros de memórias que, infelizmente, não abrangeram a melhor parte de sua vida diplomática. Coube a Azambuja a importante tarefa de fazer o registro para a posteridade dessa última fase, inclusive de aspectos não tão lisonjeiros. Amado era presunçoso, de uma vaidade sem limites. Há o registro de cada uma dessas características, com as mais graves subsumidas sob a deliciosa frase: “Não eram poucos ou silenciosos os seus preconceitos” (Fonseca Jr. & Zilli 2026, 362).

A visão de Azambuja sobre o Brasil e o mundo privilegia naturalmente a força de agência de grandes intelectuais e estadistas. Os constrangimentos internacionais e domésticos são dados pouco salientados. Mas seu retrato pitoresco dos personagens esconde sempre uma leitura mais ampla sobre o mundo. Quando escreve que o argentino Dante Caputo tinha “um pequeno déficit de prudência e um estoque excessivo de ideias” (Fonseca Jr., Hirst & Mello e Silva 2025, 289), por exemplo, não avalia apenas o personagem: sugere uma reflexão sobre o que avalia serem os perigos de entregar a política externa a personalidades brilhantes, mas indóceis, ainda não temperadas pelo enleio da classe diplomática profissional. Fez julgamento equivalente sobre o ex-presidente brasileiro Jânio Quadros e sobre a atuação de Marco Aurélio Garcia na assessoria palaciana do presidente Lula.

A peculiar capacidade narrativa e descritiva dos dois livros é um bálsamo, sobretudo agora, quando a escrita já se padronizou pela glossolalia da inteligência artificial. Azambuja é um espirituoso Virgílio, que acompanha o leitor pelos mais diversos ambientes públicos e privados, em especial no Rio de Janeiro, cidade pela qual tinha profunda admiração. Entre eruditas galhofas e perspicazes análises, caminhamos da Praia do Flamengo ao Centro do Rio de Janeiro em sua dimensão francófona; visitamos o antigo Palácio do Itamaraty e seu entorno, admirando como o cotidiano diplomático de outrora derivava do enlace íntimo com a barafunda das lojas populares e dos restaurantes tradicionais da “Rua Larga”; suspiramos, com o autor, a nostalgia do hotel VIP’s. Esses passeios fazem o passado respirar de forma humana, em seus detalhes e contradições. Azambuja tem a “tolerante curiosidade sobre o mundo” (2026, 83), qualidade que atribuiu a Fernando Henrique Cardoso e que descreve, sem ajuste, ele próprio.

Essa curiosidade não findou com a carreira. De volta ao Rio de Janeiro, converteu a aposentadoria em uma segunda vida pública. Na vice-presidência do Conselho Curador do CEBRI, de onde procurou, em suas próprias palavras, “influir para que nos debates pré-eleitorais as questões do nosso relacionamento externo estejam presentes” (2026, 166, 284). É dessa tribuna que emite seus juízos sobre a política externa brasileira recente. Em artigo de 2013, no governo Dilma, por exemplo, conclama o retorno ao “leito tranquilo de uma política externa em que preferências personalistas, partidárias e ideológicas não turvavam a visão dos nossos verdadeiros interesses” (2026, 231). O diagnóstico alinha um diplomata do primeiro escalão aos críticos da gestão do PT, que viam na ênfase Sul-Sul uma ideologização da agenda. Azambuja não desce ao panfleto, mas tampouco tergiversa, especialmente com relação ao que avaliava como excessiva “indulgência com governos de duvidosa competência e legitimidade” na vizinhança (2026, 245).

Embaixadores, ao final da vida, mesmo no pijama da aposentadoria, têm dificuldade em se despir do fardão mental dos cacoetes da carreira. Se reaproveitássemos a famosa frase de Walter Benjamin, poderíamos afirmar que inexistem memórias diplomáticas que não sejam, ao mesmo tempo, exercícios de autojustificação. Azambuja refere-se a essa realidade como reverência aos “hábitos da casa, às tradições da casa, ao estilo da casa” (2025, 57). Ele próprio não escapa por inteiro dessa condição, com seu lamento sobre a “decadência da qualidade dos padrões de ação diplomática” (2026, 79), reclamação repetida por toda geração de memorialistas da carreira.

As obras, em conjunto, no entanto, fogem do tom laudatório. São até iconoclastas. Têm visão crítica incomum sobre aspectos quase sagrados da diplomacia profissional brasileira e expõem a tensão entre o culto à tradição e o diagnóstico de uma instituição que envelhece mal. Azambuja aponta, por exemplo, a “lentidão em rever” e o “tribalismo elitista” como problemas fundamentais do Itamaraty. O tradicionalismo ossificaria os mais jovens, que se sentiriam “ungidos de uma sacralidade herdada, de um respeito reverencial pelos mais velhos” (2025, 136). O resultado, para ele, era uma instituição com “mais talento virtual do que realizações efetivas” (2025, 172). É conclusão severa e, ao mesmo tempo, contraditória com sua alegria ao relembrar os grandes personagens do passado.

A crítica é especialmente importante no caso do ex-chanceler Antônio Azeredo da Silveira. As alentadas memórias de Roberto Campos não poupam Silverinha, por exemplo, enquanto a entourage do chanceler do governo Geisel (1974-1979) o classifica como um dos grandes da história do Brasil. Azambuja talvez seja um dos únicos ex-colaboradores a fazer crítica frontal a seu antigo mentor, apontado como revanchista, ególatra, competitivo e paranoico. Vaticina: “errou mais do que acertou” (2025, 113, 282-283; 2026, 379). Ocasionalmente, todavia, sua avaliação é dura em excesso, talvez por herdar o juízo de muitos de seus ex-chefes, como no caso de Odette de Carvalho, a primeira mulher alçada à condição de ministra de primeira classe (2025, 84).

Ele também não poupa rotinas canônicas da instituição. Nas duas obras, critica o processo de confecção dos discursos proferidos por representantes brasileiros na abertura das sessões da ONU. Do ponto de vista burocrático, há grande luta interna, notadamente entre a Secretaria de Estado do Itamaraty, o Planalto e a Missão do Brasil na ONU, sobre a fraseologia do pronunciamento brasileiro, com dezenas de pessoas intervindo nos rascunhos. A atividade acaba sendo um termômetro dos micropoderes entre secretarias, departamentos e assessores. Azambuja parece sugerir que os diplomatas dariam importância excessiva a algo “ouvido com indiferença”, sem com isso minimizar a ocasião: é quando o país apresenta sua leitura da ordem internacional, expõe posições sobre as crises em curso e comunica as prioridades de sua política externa.

Sua recorrente predileção pela justaposição de contrários, no entanto, privilegia a consistência da tradição. É isso que explica o elogio paralelo a Luís Carlos Prestes, Eugênio Gudin, Barbosa Lima Sobrinho e Sobral Pinto: todos foram, por décadas, fiéis a suas respectivas ideologias. Esse traço também se alinha à forma com que observa o sentido de excepcionalidade da experiência brasileira no mundo latino-americano. Muita tinta já se derramou para explicar como nossa autoimagem nacional se construiu na alteridade conflitiva com os vizinhos. Azambuja, com sua profunda experiência regional, reforça essa leitura ao afirmar, em palestra de 2016 na Casa do Saber, que “somos farinha de outro saco”. Seríamos um país “retardatário, não um país fora de rumo. Não costumamos errar muito; pecamos, isto sim, por demorar em acertar” (2026, 41-42). A leitura implícita era que os vizinhos, imbuídos do “personalismo com gesticulação teatral” (2026, 86), seriam inconsistentes. Isso se estende à imagem da própria carreira: para ele, os diplomatas brasileiros seriam “mais profissionais” do que os vizinhos (2026, 334).

Resta a pergunta que as duas obras deixam em aberto: o que fazer com uma memória que ao mesmo tempo cultua e desmonta os alicerces da Casa que a produziu? Azambuja não a resolve, e talvez seja esse o seu maior acerto. As Memórias e a Coletânea valem menos como inventário de uma carreira de 45 anos do que como um olhar que aprendeu a desconfiar das próprias certezas, incluídas as do Itamaraty. Se o Brasil que Azambuja descreve é um país que peca por demorar a acertar, seu testemunho sugere que a diplomacia brasileira talvez padeça do mesmo vício, e que reconhecê-lo, com a leveza de quem ainda acredita na instituição, já é uma forma de começar a corrigi-lo.

As duas obras não oferecem, é preciso dizer, enquadramento definitivo. Convém notar que 52 dos 64 textos da Coletânea datam de depois de sua aposentadoria (maio de 2003), e há somente um do período anterior a 1981. Há espaço, portanto, para uma terceira publicação. Para além da série telegráfica, existe, no acervo do Itamaraty, volume considerável de memoranda do período em que ele esteve no Rio de Janeiro e em Brasília. Um dos primeiros textos de Azambuja nessa série, datado de dezembro de 1959 e classificado como confidencial, foi uma madura ponderação sobre a extensão do mar territorial brasileiro. 

Essas fontes se tornam ainda mais relevantes quando observamos que Azambuja, de forma atípica, permaneceu por longos anos na Secretaria de Estado, de 1976 a 1987. É um período decisivo da história da política externa brasileira, de transição dos últimos dois governos autoritários para a presidência civil de José Sarney. O diplomata esteve no centro da ação. Em um dos textos, menciona as “hipotecas” (2026, 88) que inibiam a política externa brasileira, mas não se apresenta como um dos arquitetos que ajudaram a resolvê-las. A série memoranda ajuda a preencher essa lacuna. Como chefe da área administrativa do Itamaraty de 1984 a 1987, redigiu com frequência incisivos despachos registrando a transformação da instituição no período da democratização, como a desativação da famigerada “Secretaria Especial de Documentação (SEDOC)” em setembro de 1986. No plano externo, colaborou com o embaixador Bernardo Pericás Neto no retorno do Brasil ao Conselho de Segurança da ONU. “Voltaremos ao Conselho, quando o Brasil, liberto de entraves e inibições, pode voltar a ocupar, plenamente, o papel que lhe cabe no cenário internacional”, vaticinou.

Esses papéis sobrevivem a quem os redigiu. Ainda dispersos, é neles que a frase de Chateaubriand cobra o seu sentido. Nossos mortos seguirão a instruir os vivos. Quem dedicou a carreira ao não acontecimento, à diplomacia ideal da folha em branco, legou no fim dois livros de notável franqueza e riquezas ainda não prospectadas. Guardião do passado, Azambuja deixa a lição de que uma das melhores tradições do Itamaraty talvez seja a de saber lembrar-se de si mesmo, antes que sua história se converta apenas em memória alheia.

Referências Bibliográficas 

Fonseca Jr., Gelson, Monica Hirst & Alexandra de Mello e Silva. 2025. Memórias de Marcos Azambuja. Rio de Janeiro: CEBRI.

Fonseca Jr., Gelson & Bruno Zilli (Orgs.). 2026. Marcos Azambuja: coletânea de textos. Brasília: FUNAG; CEBRI.

Recebido: 3 de junho de 2026

Aceito para publicação: 9 de junho de 2026

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