No livro Latin America Activism and Routine Violence in the 21st Century, a socióloga Simone Gomes discute a relação entre o modo como a violência é exercida por atores estatais e paramilitares e as transformações no ativismo latino-americano no século XXI. A autora demonstra que o aumento da repressão a ativistas na região representa um forte obstáculo aos movimentos sociais, mas que isso não significa a eliminação completa da ação coletiva e da resistência.
A obra é resultado de uma extensa pesquisa baseada em entrevistas com ativistas e pesquisadores, análises de dados quantitativos e consultas a materiais jornalísticos. Dentre as principais contribuições do livro, destaco quatro: (1) o debate teórico que amplia o escopo da Teoria dos Movimentos Sociais; (2) os insights metodológicos pertinentes ao modo como devemos conceber a América Latina, enquanto objeto de estudo; (3) a discussão dos elementos históricos que ajudam a desconstruir o discurso amplamente disseminado de que a região é intrinsecamente violenta; e (4) o registro dos nomes e das trajetórias de inúmeros ativistas e movimentos sociais ao longo da obra, uma iniciativa que ajuda a manter viva a memória desses sujeitos.
Uma das principais ideias defendidas pela autora é a de que a violência na América Latina – a região mais violenta do mundo e onde a taxa de homicídio é quatro vezes maior do que a média global – não pode ser concebida como um fenômeno contextual, mas sim como um fenômeno estrutural. O uso do conceito de routine violence (violência rotineira) sinaliza que o cotidiano desses povos é fortemente marcado pela violência, e que esta, por sua vez, não é exercida de forma monopolizada pelo Estado. Atores paramilitares, contando com o apoio tácito ou explícito de atores estatais e/ou por vezes financiados pelo capital transnacional, assumem cada vez maior preponderância nos conflitos políticos. Esse fato adiciona mais um elemento a ser levado em conta na Teoria dos Movimentos Sociais, quando pesquisamos as sociedades latino-americanas, algo normalmente ignorado quando estudamos as sociedades dos países centrais do sistema-mundo, uma vez que nelas o Estado, via de regra, não terceiriza o exercício da violência.
O medo engendrado pelas práticas repressivas de grupos paramilitares nos países latino-americanos resulta em uma significativa desmobilização dos movimentos sociais, devido ao alto risco para certos grupos expressarem suas demandas publicamente. Prova disso é que, nos últimos 25 anos, a América Latina registrou milhares de ativistas assassinados por forças de segurança do Estado, enquanto, na Europa, somente uma morte desse tipo foi documentada. Os grupos mais vulneráveis são aqueles formados por camponeses, indígenas, afro-latinos, ambientalistas e feministas, o que implica a necessidade de pensar a relação entre violência e ativismo a partir da intersecção entre classe, gênero e raça.
Além dessas desigualdades estruturais, Gomes também chama a atenção para as diferenças internas à América Latina. A socióloga demonstra que, embora a desmobilização causada pela repressão estatal e paramilitar seja uma realidade de todos os países da região, esse fenômeno não ocorre de forma uniforme em todos eles. Ao lançar mão de tipologias, como a que divide os países em níveis de frequência de violência contra ativistas (raro, ocasional e frequente), a autora converge com a proposta metodológica de Waldo Ansaldi (2022) de pensar a América Latina como um “coletivo heterogêneo”.
Ansaldi defende a ideia de pensar a região como uma totalidade unida pela sua diversidade interna. Isso implica que os pesquisadores “latino-americanistas”, interessados em investigar fenômenos que afetam transversalmente os países que compõem o subcontinente devido à posição periférica que ocupam no sistema-mundo e às similaridades culturais e históricas existentes entre eles, deveriam ter o cuidado de não produzir generalizações absurdas. Dito de outra forma, Ansaldi nos alerta para a necessidade de evitar dois extremos: (1) a miopia do individualismo metodológico, que se volta a analisar os fenômenos sociais apenas a partir da observação dos conflitos políticos no âmbito nacional, e (2) a obsessão de chegar a conclusões gerais sobre a América Latina a partir da análise de um número limitado de casos particulares.
A meu ver, Gomes encontra o ponto ótimo entre esses dois extremos. O projeto ambicioso da autora em analisar as transformações na relação entre violência e ativismo no século XXI na América Latina é bem-sucedido, pois consegue articular elementos nacionais e transnacionais na análise dos inúmeros casos de violência enfrentados por ativistas cotidianamente, ao passo que ela percebe que tais elementos afetam os diferentes países de modos e com intensidades distintos. A título de exemplo, a autora relaciona o avanço do poder paramilitar com elementos de natureza transnacional, ao demonstrar que mineradoras estrangeiras têm se articulado com grupos paramilitares para coibir a atuação de ambientalistas que resistem ao avanço do extrativismo. Esse problema é relativamente mais grave para os países amazônicos, como Brasil, Colômbia, Peru e Venezuela, do que para o Uruguai, por exemplo.
Outra contribuição interessante da obra de Gomes é o questionamento do discurso amplamente disseminado de que as sociedades latino-americanas são inerentemente violentas, por conta de um suposto “mau de origem” produzido pela colonização europeia no século XVI. Essa vinculação direta entre um passado longínquo e o presente nos impede de enxergar as decisões dos atores políticos após a independência formal que levaram à perpetuação da violência até os dias de hoje. Por conseguinte, também nos impede de pensar em soluções para romper com a trajetória de violência.
Ao se contrapor a essa concepção determinista, Gomes não ignora os efeitos de longo prazo da colonização, mas sim busca incorporar na sua análise os efeitos de outros processos mais recentes, como a instauração de regimes políticos autoritários e a manutenção de elementos repressivos mesmo após a redemocratização. A autora afirma que nos momentos de conjunturas críticas (crises econômicas e/ou políticas), as elites tendem a recorrer à militarização da sociedade e da política como o meio prioritário para conter a contestação social, reforçando e atualizando historicamente a trajetória de violência dessas sociedades.
Para além das inovações teórico-metodológicas, outro aspecto do trabalho de Gomes que merece menção é a sua contribuição para a preservação da memória de um conjunto extenso de ativistas e de movimentos sociais. Afinal, seus nomes e suas histórias de vida são relatados ao longo da obra, servindo não apenas como evidências que embasam a rica discussão teórica proposta, mas formando uma espécie de repositório de minibiografias que não podem ser esquecidas.
Por fim, vale registrar que, em que pese o diagnóstico sombrio da realidade do ativismo social na América Latina, é possível vislumbrar um futuro diferente. A autora cita uma série de iniciativas de resistência e de solidariedade que emergiram nas últimas décadas, fornecendo ao leitor uma dose de esperança ao final da obra.
Referências Bibliográficas
Ansaldi, Waldo. 2022. “¿Cómo investigar el enigma América Latina? Nueve proposiciones para capturar una liebre muy esquiva”. Estudios Latinoamericanos, Nueva Época 50 (julho-dezembro): 19-50.
Gomes, Simone. 2026. Latin America Activism and Routine Violence in the 21st Century. Bristol University Press.
Recebido: 22 de junho de 2026
Aceito para publicação: 25 de junho de 2026
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