Esse é o primeiro texto de uma série de análises a serem publicadas periodicamente pelo CEBRI, focadas no desempenho da balança comercial, com ênfase nas respostas do Comércio Exterior brasileiro às profundas – e ainda imprevisíveis – transformações em curso no cenário internacional, seja em consequência do ambiente crescentemente protecionista, – o qual vem imprimindo uma nova urgência à negociação de acordos bilaterais entre países e/ou blocos econômicos – seja pela necessidade de ser repensada a forma de inserção do Brasil no reordenamento, mundial, pelo qual estão passando as cadeias produtivas. Nesse contexto incerto, – que ao mesmo tempo aponta para riscos e para oportunidades –, sobressai de forma imperativa a necessidade de uma ampliação e diversificação do comércio exterior brasileiro, não só em seu papel enquanto “engine of growth”, mas também enquanto instrumento para a redução de vulnerabilidades que estão presentes na sua economia, e que o novo contexto internacional vem acentuando: as análises do CEBRI, que serão trimestrais, pretendem dar uma especial atenção para esse esforço de diversificação, tanto no eixo importação quanto exportação, com uma especial atenção a países e a setores nos quais estará operando essa dinâmica.[1]
Em um ano marcado por profundas transformações nas regras do comércio internacional – notadamente a implantação de novas barreiras tarifárias que afetaram significativamente as exportações brasileiras para os EUA (queda de 6,7%) – os números relativos ao Comércio Exterior brasileiro em 2025 apontam para resultados positivos (tabela 1): um crescimento de 4,8% na corrente de comércio (US$ 629,06 bilhões) resultante de um crescimento de 3,5% nas exportações (US$ 348,68 bilhões) – a uma taxa superior à do crescimento das exportações mundiais (2,4%) em 2025[2] – e de 6,6% nas importações (US$ 280,38 bilhões).
O saldo de US$ 68,3 bilhões na balança comercial, 8% abaixo de 2024 (-US$ 5,9 bilhões), é menos um reflexo da redução das exportações para os EUA (-US$ 2,6 bilhões) que de um salto significativo nas importações (+US$ 18,5 bilhões, +6,7%), principalmente bens de capital e produtos intermediários, associadas a uma retomada parcial da atividade econômica doméstica.

Tabela 1 – Balança Comercial Brasileira 2022–2025 (em bilhões de US$). Fonte: Comex Stat (MDIC).
À primeira vista, esses números – que no agregado são positivos – sugerem que o país teria, em larga medida, conseguido neutralizar os efeitos das novas barreiras tarifárias. No entanto, uma análise mais específica aponta para o fato de que: (i) apesar dos esforços que foram desenvolvidos visando uma maior diversificação comercial, em 2025 eles não atingiram resultados expressivos em valores absolutos, ainda que, em termos relativos, alguns sucessos significativos foram alcançados, tais como o incremento de 30% com a Índia e de 14% com o Canadá; (ii) a neutralização do efeito da variação negativa das exportações para os EUA esteve menos associada a uma adaptação estrutural (para a qual houve pouco tempo hábil), do que a windfalls em alguns setores os quais – individualmente – mais do que compensaram a redução de receita cambial advinda do mercado americano. São eles (tabela 2):
A. Principais itens da Pauta de exportação em 2025

Tabela 2 – Principais produtos exportados em 2024 e 2025 (em bilhões de US$). Fonte: Comex Stat (MDIC) e Cecafé.
Examinando-se a tabela 2, observa-se que, em 2025, os principais itens exportados foram, por um lado, produtos minerais (destacando-se petróleo e minério de ferro) e, por outro, uma diversificada pauta de produtos agropecuários – como soja, milho, açúcar, café, algodão, carnes e produtos florestais, nos quais o Brasil ocupa uma posição dominante – consolidando a posição do país enquanto maior exportador mundial líquido de produtos agropecuários e praticamente igualando os EUA enquanto primeiro exportador mundial (gross) (US$ 169 bilhões vs US$173 bilhões).[3]
No segmento da indústria de transformação, tiveram destaque: aeronáutica, equipamentos & máquinas, veículos automotores,, aço, papel e celulose com forte concentração em alguns mercados (≈62% da aeronáutica nos EUA , ≈52% dos veículos automotores na Argentina, ≈40 % de papel e celulose na China) (tabela 3).

Tabela 3 – Principais produtos industriais exportados para EUA, Argentina (ARG) e China (CHN) (2025). Fonte: Comex Stat (MDIC).
Se, por um lado, os valores recorde alcançados em 2025 pelos setores de carne bovina, café e veículos permitiram um desempenho conjunto que superou largamente a perda de receita nos EUA durante o ano de 2025 (>US$ 11 bilhões adicionais x redução de receita de US$ 2,6 bilhões), por outro deve ser observado que tais resultados favoráveis consistiram em movimentos conjunturais não necessariamente recorrentes:
B. Principais Correntes de Comércio em 2025

Tabela 4 – Principais destinos das exportações em 2024 e 2025 (em bilhões de US$). Fonte: Comex Stat (MDIC)
B.1. As principais correntes de comércio do Brasil em 2025 (tabela 4) foram: China, UE, EUA, Mercosul e Asean, com um crescimento expressivo observado em apenas duas regiões: a China (principalmente compras adicionais de carne bovina e soja) e Mercosul (principalmente o salto nas importações de veículos pela Argentina);
B.2. Observa-se o quanto o eixo do comércio exterior brasileiro se deslocou para a Ásia:
B.3. Em relação aos EUA deve ser observado que os números relativos ao ano de 2025 são uma "subestimativa" da extensão do impacto negativo, nos médio e longo prazos, das novas tarifas americanas, já que os seus efeitos se concentraram nos últimos cinco meses do ano, e foram sendo introduzidos de forma progressiva (10% a partir de abril +40% a partir de agosto):

Tabela 5 – Balança Comercial Brasil-EUA (2024-2025) (em bilhões de US$). Fonte: Comex Stat (MDIC).
Como se pode observar na tabela 5, metade da redução da receita com as exportações brasileiras para o mercado americano, em 2025, é explicada pela queda (21%) ocorrida a partir de agosto, quando a média mensal de US$ 3,4 bilhões observada entre janeiro e julho (que apontava para um crescimento anual de 1%) caiu para US$ 2,5 bilhões no período agosto – novembro de 2025.
Caso não ocorram progressos nas próximas rodadas de negociações com os EUA, a potencial perda de comércio em 2026 (se medida a partir dos últimos cinco meses do ano) seria um múltiplo do número registrado nas estatísticas do ano de 2025.
Por isso, frente ao ambiente internacional cada vez mais protecionista, ganham importância crescente as iniciativas de caráter multilateral – notadamente as negociações em curso do Brasil, através do Mercosul, com Singapura, Canadá e principalmente a União Europeia – mas cujos efeitos se farão sentir no médio e longo prazo.
CONCLUSÃO
Os números relativos a 2025 permitem identificar algumas “linhas de força” do comércio exterior brasileiro:
1. Apesar de um cenário internacional adverso, a corrente de comércio brasileira cresceu a uma taxa maior que a do comércio mundial (trade of goods), voltando a consolidar sua posição enquanto o maior exportador mundial de produtos agropecuários;
2. No entanto podem ser identificadas alguns pontos de vulnerabilidade que (paradoxalmente) são o reverso de “histórias de sucesso”, tais como:
a. o notável acesso alcançado pelo Brasil, nos últimos anos, junto ao mercado chinês, no qual atualmente está concentrada ≈30% da receita cambial brasileira, com um market share ≈50% em setores como soja, carne bovina e minério de ferro;
b. na indústria de transformação, a concentração das exportações de alguns segmentos em poucos mercados (ex. veículos no mercado argentino, aeronáutica no mercado americano);
c. a dependência do agronegócio da importação de fertilizantes (US$ 15,5 bilhões em 2025), concentrada em poucos fornecedores (Rússia, Canadá e China);
d. a concentração do superávit da balança comercial brasileira em três áreas geográficas – China (US$ 29,27 bilhões), ASEAN (US$ 10,39 bilhões) e Mercosul (US$ 7,3 bilhões) – que representaram dois terços do saldo positivo da balança comercial em 2025.
3. Diante da possibilidade de que: (a) não se repitam, em 2026, os movimentos conjunturais favoráveis, que, em 2025, resultaram de um windfall expressivo em alguns setores; (b) e de que – não havendo progressos nas negociações – poderão se aprofundar os efeitos negativos das limitações americanas, sobressai a necessidade de uma estratégia ambiciosa de diversificação comercial: a) através de negociações bilaterais, notadamente junto a mercados com grandes populações e elevado dinamismo econômico, como a Índia e países da ASEAN, e a economias, como o Canadá e o México, para as quais a diversificação comercial se tornou uma prioridade estratégica; e b) pela via das negociações multilaterais em curso, observando que o recém-assinado Acordo Mercosul–UE assume uma relevância sem precedentes (além do seu significado geopolítico), apresentando um extraordinário potencial de ampliação e diversificação das correntes de comércio do Brasil, ainda que seus efeitos dependam das suas condições de implementação no médio e longo prazo.
A ampliação da participação do Brasil no comércio internacional, – além da contribuição positiva ao desenvolvimento econômico enquanto “engine of growth” – pode, portanto, ser direcionada para um segundo propósito: o da redução de vulnerabilidades, tais como as apontadas acima, através da diversificação das fontes de suprimento e do leque de destinos das exportações.
O claro hiato existente entre o peso do Brasil na economia mundial (11º lugar, participação de ≈2%) e de sua participação no Comércio Internacional (25º lugar, participação <1,5%) – o que se reflete na participação de ≈15% do setor no PIB – sugere a existência de um amplo espaço potencial de expansão.
*Os autores gostariam de agradecer a Augusto Castro, Lia Valls, Antonio de Souza e Silva, José Pimenta e equipe do CEBRI pela leitura atenta do material e comentários.
Notas
[1] Os autores gostariam de agradecer a José Ricardo Araujo (CEBRI) pelo seu apoio na elaboração dessa análise de conjuntura.
[2] World Trade Organization. 2025. AI goods and frontloading lift world trade in 2025 but outlook dims for 2026. WTO. Publicado em 7 de outubro de 2025. https://www.wto.org/english/news_e/news25_e/stat_07oct25_e.htm.
[3] Fonte: Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, 2025.
Referências Bibliográficas
Brasil. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Comex Stat. Sistema oficial de estatísticas de comércio exterior. https://comexstat.mdic.gov.br/pt/home.
Cecafé. 2026. “Exportação de café do Brasil cai em 2025, mas receita é recorde.” Cecafé Notícias, January 19, 2026. https://www.cecafe.com.br/publicacoes/noticias/cecafe-exportacao-cafe-2025-20260119/
U.S. Department of Agriculture, Economic Research Service, and Foreign Agricultural Service. 2025. Outlook for U.S. Agricultural Trade: December 2025. AES-134. Washington, DC: U.S. Department of Agriculture, December 23, 2025. https://www.fas.usda.gov/sites/default/files/2025-12/AES-134.pdf.
World Trade Organization. 2025. AI goods and frontloading lift world trade in 2025 but outlook dims for 2026. WTO. Publicado em 7 de outubro de 2025. https://www.wto.org/english/news_e/news25_e/stat_07oct25_e.htm
Recebido: 19 de março de 2026
Aceito para publicação: 11 de maio de 2026
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