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Editorial

O Brasil entre dois Ocidentes

Estados Unidos e União Europeia
Imagem: Estúdio Marijaguar.

Na Odisseia de Homero, Ulisses precisa navegar por um estreito entre Cila e Caríbdis, dois perigos dos quais não há escapatória perfeita. Evitar um implica arriscar-se ao outro. A sobrevivência não depende da escolha de um lado, mas da habilidade, da prudência e da capacidade de seguir em frente apesar das inevitáveis restrições. O Brasil hoje se encontra em uma posição comparável – situado entre duas versões do Ocidente, uma ancorada nos Estados Unidos e a outra na Europa. Uma representada pela agressividade da agenda do presidente Trump e a outra pela busca de sua autonomia no mundo. O Brasil precisa traçar um rumo em meio a uma ordem cada vez mais fragmentada e contestada, representada por essa divisão contínua entre duas versões do Ocidente.  

O título desta edição, Brasil Entre Dois Ocidentes, captura mais do que um posicionamento geográfico ou diplomático. Reflete uma transformação mais profunda na política global. A aliança transatlântica que por muito tempo estruturou a coesão ocidental sofreu tensões visíveis, particularmente durante a presidência de Donald Trump, quando pressupostos de longa data sobre valores compartilhados, compromissos institucionais e alinhamento estratégico foram abertamente questionados. Divergências sobre comércio, regulamentação tecnológica, prioridades de segurança e o futuro do multilateralismo continuam a moldar um Ocidente em evolução e menos coeso.

Ao mesmo tempo, a postura adotada pelos Estados Unidos durante a presidência de Trump pode ser interpretada como um afastamento dos fundamentos normativos da ordem multilateral. Ao privilegiar a ação unilateral, contestar as instituições multilaterais e reformular os compromissos internacionais em termos transacionais, essa abordagem evoca uma concepção mais hobbesiana da política internacional, na qual o poder prevalece sobre as regras, e as restrições legais são subordinadas ao interesse nacional imediato. Para países como o Brasil, essa mudança levanta questões importantes sobre a confiabilidade das normas estabelecidas e os riscos associados a um ambiente global cada vez mais fragmentado pelo direito.

Para o Brasil, essa fragmentação não representa uma anomalia, mas sim a confirmação de uma visão já consolidada. A política externa brasileira historicamente compreende o sistema internacional não como uma ordem liberal unificada, mas como um ambiente plural e fragmentado, composto por instituições sobrepostas, coalizões concorrentes e múltiplos marcos normativos. Nessa perspectiva, o momento atual representa menos uma ruptura do que uma intensificação de dinâmicas que há muito definem a governança global.

Essa interpretação tem consequências importantes. Se a ordem internacional é inerentemente plural, então alinhamentos rígidos tornam-se menos desejáveis e menos eficazes. A tradição diplomática brasileira, portanto, tem enfatizado a autonomia, a diversificação de parcerias e o engajamento em múltiplas esferas institucionais. Em vez de escolher entre centros de poder concorrentes no Ocidente ou em outros lugares, o Brasil tem buscado operar entre eles, ampliando sua margem de manobra e contribuindo para a construção de uma ordem global mais inclusiva e diversificada.

A metáfora de Ulisses é particularmente apropriada porque o desafio do Brasil não é simplesmente evitar riscos, mas sim navegar ativamente por eles. Os Estados Unidos continuam sendo um parceiro central, oferecendo laços profundos em áreas como tecnologia, investimento e cooperação política. A Europa, por sua vez, representa um interlocutor crucial em questões de comércio, regulamentação, governança climática e diplomacia multilateral. Ambos os polos são essenciais, mas nenhum deles pode definir por completo a estratégia internacional do Brasil.

As longas negociações em torno do Acordo UE-Mercosul oferecem uma ilustração concreta tanto do potencial quanto das limitações da Europa como parceira do Brasil. Por um lado, o acordo reflete um compromisso compartilhado com a liberalização do comércio, a convergência regulatória e os padrões ambientais. Por outro, seus repetidos atrasos e contestações políticas dentro da Europa revelam a fragilidade desse compromisso diante das pressões internas e das prioridades em constante mudança. Para o Brasil, o acordo representa, portanto, tanto oportunidade quanto incerteza, reforçando a necessidade de um engajamento pragmático com a Europa, evitando, ao mesmo tempo, a dependência excessiva de uma parceria que permanece contingente e politicamente disputada.

De fato, a Europa tem oscilado entre defender a integridade do direito internacional e acomodar sua erosão por meio do silêncio estratégico ou da aplicação seletiva. Embora os atores europeus frequentemente se posicionem como guardiões do multilateralismo e da ordem normativa, suas respostas às violações do direito internacional nem sempre têm sido consistentes. Essa ambivalência reflete tanto divisões internas quanto as restrições impostas pelas realidades geopolíticas, mas também introduz incerteza para parceiros como o Brasil, que precisa avaliar se a Europa pode atuar como uma âncora normativa estável em um cenário de crescente fragmentação global.

O contexto internacional atual torna essa estratégia, ao mesmo tempo, mais necessária e mais difícil. À medida que a competição geopolítica se intensifica e as pressões por alinhamento aumentam, o espaço de manobra das potências médias pode diminuir. Nesse ambiente, a longa tradição brasileira de priorizar o multilateralismo, a negociação e o engajamento institucional torna-se um recurso valioso.

As contribuições reunidas nesta edição exploram essas dinâmicas sob múltiplas perspectivas, examinando as relações do Brasil com os Estados Unidos e com a Europa à luz das transformações mais amplas na ordem global. Em conjunto, elas sugerem que o desafio do Brasil não é escolher entre dois Ocidentes, mas redefinir seu engajamento com ambos de forma a preservar a autonomia e, ao mesmo tempo, promover seus interesses nacionais.

Assim como Ulisses, o Brasil não pode evitar o estreito. Mas pode escolher como atravessá-lo. O caminho a seguir não reside em alinhamentos rígidos nem em isolamento estratégico, mas em uma diplomacia pragmática e flexível, capaz de operar além das divisões. Ao abraçar sua posição como Estado fundamental e aproveitar a pluralidade do sistema internacional, o Brasil pode transformar um cenário de riscos em um campo de oportunidades.

Num mundo que já não se define por um único centro de poder nem por um conjunto unificado de regras, a capacidade de navegar entre Cila e Caríbdis poderá muito bem tornar-se a habilidade essencial para uma política externa bem-sucedida. O Brasil, caso se mantenha fiel à sua tradição diplomática, adaptando-se às novas realidades, estará em excelente posição para dominar essa arte.

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