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Resenhas de Livros

Sobre os ditos e os não ditos

Resenha do livro de Luiz Feldman "Sobre hemisférios: capítulos de geopolítica brasileira" (Autêntica Editora 2025)

A geopolítica impõe-se ao Brasil de tempos em tempos. Os problemas externos não são compreendidos, nesses momentos, como secundários: tornam-se existenciais. Exigem como resposta uma definição fundamental de espaço, uma tomada de posição no sentido forte do termo, a partir da qual o país busca se proteger dos perigos vindos de fora e abrir o mundo, ou parte dele, à influência brasileira (Feldman 2025, 19).

A leitura desse parágrafo, que dá início à Introdução do livro de Luiz Feldman Sobre hemisférios: capítulos da geopolítica brasileira (Autêntica Editora 2025), imediatamente nos remete à intervenção militar estadunidense na Venezuela – codinome Operação Resolução Absoluta, ocorrida em 3 de janeiro deste ano de 2026. Mais precisamente, nos remete à reflexão sobre o posicionamento brasileiro a respeito do fato em si e do que ele representa para o país.

Embora indiscutível, a atualidade dessa e de outras reflexões de Feldman neste livro não se reduz ao ocorrido no início deste ano. O fato de a sentença acima ter sido redigida antes do episódio referido, na realidade só reforça a perenidade das questões abordadas na obra, quando se trata de refletir sobre a inserção internacional do Brasil. 

Mas, como o próprio Feldman afirma, “as concepções concretas da ordem regional e interesse extracontinental são (...) em uma palavra, históricas. Mudam com o tempo, reagem às circunstâncias oscilantes e podem contrastar deliberadamente entre si. Formuladas em contextos específicos, podem transcendê-los, revelando-se longevas ou reincidentes” (20). E, por serem questões basilares para o país, sempre haverá debates a seu respeito. E tal como as concepções mudam  historicamente, também suas interpretações se redesenham com a história. 

Abordando a tensão entre os distintos sentidos de continente e de extracontinentalidade, Feldman nos conduz pela história do Brasil por meio dos fatos e das reflexões dos seus pensadores. Na qualidade de diplomata e, mais que isso, de estudioso do “pensamento internacional brasileiro” por ele descrito como “uma camada posterior ao pensamento político e social e anterior ao pensamento diplomático” (Feldman 2023) –, o autor analisa, em quatro distintos capítulos do livro, telegramas, cartas, discursos, enfim, textos diversos em que Paulino José Soares de Sousa, o Visconde do Uruguai, Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre e Afonso Arinos discorrem e prescrevem qual deveria ser o comportamento internacional do país.

A obra é, sem dúvida, uma contribuição ímpar para os estudiosos e interessados no pensamento político brasileiro, em particular sobre sua dimensão internacional. Mas sua relevância também é indiscutível para os que se dedicam a compreender as escolhas de política externa, os porquês e como foram feitas. Enfim, para os analistas de política externa. Esta, certamente, não se trata de uma dedução original. O próprio Feldman, por diversas vezes, refere-se a esse aspecto da sua obra. E o faz com a clareza e a elegância que lhe são características, afirmando: 

Cada uma dessas concepções de ordem regional e de interesse extracontinental supõe o seu próprio horizonte. É característico dos conceitos, na verdade, terem tanto uma dimensão descritiva quanto uma dimensão antecipatória. Essa segunda qualidade os torna “diagnósticos com intenções prognósticas”. E, como antecipações de cenários futuros, os conceitos estabelecem horizontes políticos e sociais que orientam a ação rumo à mudança estrutural e tornam essa mudança visível e passível de avaliação (2025, 37).

Embora o autor diga que, dessa forma, o que faz é uma “história diplomática entrelaçada a uma história intelectual” (idem), eu sustento que o que ele faz, ou melhor, o que ele também faz, ao refletir sobre a prática diplomática, é análise de política externa entrelaçada ao estudo do pensamento internacional brasileiro, neste sentido ancorado em duas riquíssimas subáreas da Ciência Política. 

E é neste cruzamento de saberes que Feldman nos mostra como a diplomacia brasileira fez frente à geopolítica por meio das noções: de América do Sul ou América Meridional, entre 1843 e 1866, examinando os escritos  do Visconde do Uruguai; de Hemisfério Ocidental, de 1899 a 1909, ao percorrer os diários e cartas de Joaquim Nabuco; de trópico, de 1948 a 1959, com Gilberto Freyre; e de Hemisfério Sul, entre 1961 e 1963, com Afonso Arinos. 

Dentre os inúmeros aspectos que eu gostaria de destacar da reflexão de Feldman ao tratar do pensamento do Visconde do Uruguai sobre a grandeza do Brasil e a centralidade da América Meridional, um em particular me chamou a atenção. Ao situar o Visconde no ponto de partida da tradição sul-americana da diplomacia brasileira e atribuir ao Barão do Rio Branco a posição de seu seguidor e não mais de precursor dessa orientação, Feldman ao mesmo tempo resgata o pioneirismo do primeiro e concede ao Barão um lugar mais temporal, diria até mais humano, ao relativizar sua pesada fama de ser o fundador de quase todas as tradições da diplomacia brasileira.

Em seguida, Feldman nos mostra a riqueza de visões de que se constitui nosso universo de grandes intérpretes do país, ao tratar das ideias de Joaquim Nabuco sobre o lugar do Brasil no mundo, favorável que era ao monroísmo como um ordenamento regional, em nome da segurança e sobrevivência brasileiras. Aqui, em vez de protagonismo continental, pensa-se e projeta-se o futuro do Brasil a partir da aliança com os Estados Unidos, naquilo que já foi chamado por Silva (1995) e outros de “americanismo ideológico”, em contraponto ao “americanismo pragmático” do Barão do Rio Branco.

Na sequência, mais uma vez demonstrando que a dimensão internacional do pensamento político brasileiro é plural e diversa, Feldman nos faz percorrer pelas reflexões de Gilberto Freyre. Assim chegamos ao “internacionalismo imperial” de Freyre, essa curiosa equação que traz para o projeto de abertura e projeção transoceânica do Brasil um quê de projeto de dominação, sob a tese da bicontinentalidade do país. E, dentre outras tantas interessantes faces do pensamento de Freyre que Feldman destaca, vale mencionar também a questão racial, nos convidando a aprofundar seu exame na história da diplomacia e da política externa brasileira. 

Finalmente, no capítulo em que trata do pensamento de Afonso Arinos, mas também de San Tiago Dantas, Feldman adota como método o process-tracing, tão caro aos analistas de política externa. Dessa forma, acompanhamos, pela troca de telegramas entre Arinos e o então chanceler San Tiago Dantas e pelas memórias de outras figuras públicas brasileiras e estrangeiras, notadamente portuguesas, como a posição de Arinos sobre a questão colonial (Angola, em particular) exprime uma visão sobre o lugar do Brasil no mundo, mais em linha com seus pares do Sul geopolítico – para usarmos uma expressão de hoje. Vemos assim um claro contraponto anticolonialista à concepção de interesse extracontinental abraçada por Freyre, esta de corte indiscutivelmente colonialista.

O pouco que escrevemos até aqui e os destaques mencionados não correspondem a um quinto do tanto de questões e ideias que Luiz Feldman conseguiu garimpar e reunir em uma narrativa tão fluida quanto instigante sobre a temática. Para além das fontes secundárias consultadas por Feldman, a pesquisa feita nos livros assinados pelos próprios pensadores analisados, nos jornais de época e principalmente nos arquivos públicos e privados do Brasil e do exterior, reafirma a importância do acesso aos acervos históricos para um trabalho desse calibre.

Impossível também deixar de mencionar a qualidade do texto de Luiz Feldman. De fato, a escrita ao mesmo tempo ágil e profunda, que também se distingue por sua enorme elegância, enriquece ainda mais a qualidade substantiva desta obra. E se isso já não bastasse, Feldman percorre os escritos dos quatro personagens fazendo-os dialogar com opiniões, discursos e falas diversos de seus contemporâneos como quem os testemunhou em tempo real e não como quem os garimpou entre as inúmeras fontes consultadas.

Por fim, explicando o título desta resenha, lembro que, em outra oportunidade, juntamente com Paula Vedoveli, tratei de como se formou a dupla identidade que o diplomata brasileiro exerce no cenário nacional, diplomata enquanto intelectual (Pinheiro & Vedoveli 2012, 211-254). Ao fazer isso, dentre outros pontos, levantamos a questão dos não ditos que se vincula à tese de que “os agentes estão inevitavelmente inscritos em lugares sociais e sua produção é permeada por não ditos originários (mas não a eles redutíveis) das regras de organização das práticas localizadas nesse lugar” (Pinheiro & Vedoveli 2012, 247-248).  Ou nas palavras do próprio de Certau, “Certamente não existem  considerações, por mais gerais que sejam, nem leituras, tanto quanto se possam estendê-las, capazes de suprimir a particularidade do lugar de onde falo e do domínio em que realizo uma investigação. Essa marca é indelével” (1982, 65). Assim sendo, diria ainda o autor, “É, pois, impossível analisar o discurso histórico [e outros saberes] independentemente da instituição em função do qual ele se organiza silenciosamente [...]” ( 1982, 71). 

Esse, me parece, ser também o caso deste livro. E isso em nada e por nada fragiliza sua contribuição. Ao contrário, eu diria mesmo que o robustece e torna ainda mais relevante sua leitura. Uma tentativa, mesmo que não explícita, de entender as escolhas possíveis do Brasil relativamente ao seu lugar no mundo. Uma reflexão sobre os ditos do Visconde do Uruguai, de Joaquim Nabuco, de Gilberto Freyre e de Afonso Arinos, mas também um convite a pensar nos não ditos dos quatro personagens e do próprio autor.

Referências

de Certeau, Michel. 1982. A escrita da história. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária.

Feldman, Luiz. 2023. Mar e sertão: ensaio sobre o espaço no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks Editora.

Pinheiro, Leticia & Paula Vedoveli. 2012. “Caminhos cruzados: diplomatas e acadêmicos na construção do campo de estudos de política externa brasileira”. Política hoje 21 (1): 211-254. https://periodicos.ufpe.br/revistas/politicahoje/article/view/3793.

Silva, Alexandra de Mello e. 1995. “O Brasil no continente e no mundo: atores e imagens na política externa brasileira contemporânea”. Estudos Históricos 8 (15): 95-118. https://www.academia.edu/65104491/O_Brasil_no_continente_e_no_mundo_atores_e_imagens_na_pol%C3%ADtica_externa_brasileira_contempor%C3%A2nea.

Recebido: 21 de janeiro de 2026

Aceito para publicação: 22 de janeiro de 2026

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