Copiado!

Análises de Conjuntura PT

Fontes da conduta brasileira

Sementes de poder e a doutrina da conversão
Sementes de café sobre o mapa do Brasil. Imagem: Shutterstock.

A DOUTRINA DA CONVERSÃO

O Brasil e seu futuro se desenham hoje dentro de uma ordem internacional que se desagrega rapidamente e cuja desmontagem tem a peculiaridade histórica de ser catalisada por aquele que foi seu principal arquiteto. Os Estados Unidos deslocam o centro de sua atenção para a Ásia, onde julgam que o século será decidido, tratam a contenção da China como prioridade, esgarçam alianças antigas com a Europa, voltam a enredar-se no Oriente Médio. Nesse reordenamento, voltam a tratar o hemisfério como espaço natural de projeção, com a franqueza de quem desengavetou a Doutrina Monroe.

Num mundo multipolar que se regionaliza, a América do Sul deixa de ser periferia tranquila e passa a ser prioridade e território de disputa. Para o Brasil, o risco é preciso: ver comprimidas de fora as margens de autonomia que nunca soube ocupar de dentro. Esse cenário não é o tema deste ensaio; é a razão de sua urgência. A mesma pressão que ameaça comprimir a autonomia brasileira também reprecifica seus ativos - alimentos, energia, minerais, floresta, água e território - e impõe ao país uma escolha: deixar que outros convertam esse valor em poder, ou aprender, enfim, a fazê-lo em nome próprio.
Não há ilusão quanto à dificuldade do que aqui se propõe. Coordenar instituições brasileiras em torno de um objetivo de longo prazo beira o impossível. O leitor que sorri diante da hipótese tem razões de sobra. Ainda assim, vale insistir: a facilidade com que se descarta o esforço é parte do problema, não prova de lucidez. O ideal aqui proposto sabe que a realidade fará o sarrafo descer; colocá-lo alto é uma forma de impedir que desça ainda mais. Que se chame a isso uma utopia, desde que se entenda que renunciar a ela é uma das mais constantes políticas de Estado no Brasil.

Utópico também seria abraçar a complexidade deste país num ensaio, que, neste caso, não servirá para inventariar, mas sobretudo para eleger o que não tem quem o eleja. O que se tenta nas linhas que seguem é separar, do muito que importa, o que é fundamento. O diagnóstico cabe numa frase: o Brasil é governado pela acomodação, e a acomodação deixou de caber no mundo que se forma. E o fundamento cabe noutra: é preciso converter sementes de poder em poder; ativos em capacidades; capacidades em resultados.

Para isso, o Estado brasileiro precisa realizar três tarefas ao mesmo tempo: concluir um Estado inacabado, coordenar o que hoje se dispersa e liderar a agenda internacional que decide quanto valem os ativos que possui. O restante do texto desdobra essa doutrina.

O PROBLEMA: ACOMODAÇÃO SEM CONVERSÃO

O Brasil não é uma potência emergente. É uma potência não convertida. A primeira fórmula promete um amadurecimento que viria com o tempo; a segunda nomeia um bloqueio que o tempo, sozinho, não resolve. Há um século o país é descrito como a nação do futuro, e a descrição envelheceu melhor do que o país. Seguimos ricos em tudo o que se planta, se extrai e se represa, e modestos em tudo o que se decide, se sustenta e se projeta.

A explicação não está apenas nos ativos; está na governabilidade pela acomodação, e essa acomodação bloqueou a conversão de ativos em poder. As instituições brasileiras não falham simplesmente. Elas passaram a operar, com notável eficiência, como uma máquina de acomodação: distribuem assento, fatia, veto e reversibilidade. O problema, no entanto, não é a acomodação em si. Todo Estado complexo acomoda. A questão é saber se a acomodação serve a uma direção. Quando subordinada a uma estratégia, acomodação é pacto. Quando ocupa o lugar da estratégia, é paralisia. E ter estratégia significa escolher: impor perdas e administrar conflitos, exatamente o que a máquina deixou de fazer.

A abundância tornou esse arranjo suportável por muito tempo. Um país que colhe safras sucessivas, exporta minério, dispõe de água, energia, território e biomassa pôde remunerar os sócios da coalizão sem obrigá-los a escolhas duras. A escassez não explica sozinha a coordenação de Coreia, Japão ou Cingapura, assim como a abundância não explica sozinha a descoordenação brasileira. Mas a abundância reduziu entre nós a pressão histórica por uma pergunta estratégica: que poder queremos construir com o que temos?

Sejamos francos, então, sobre o que temos. O Brasil possui menos poder do que sementes de poder. O agro é o ativo mais maduro: ciência própria, escala e resposta comprovada. O poder financeiro é estreito: bancos sofisticados, mas moeda que não viaja, capital caro e orçamento rígido. O conhecimento é um arquipélago: Embrapa, Butantan, Fiocruz, águas profundas, aeronáutica, ilhas admiráveis num oceano de escola ruim e pesquisa insuficiente. Os minerais que o século exige jazem no chão em estado bruto, à espera de quem os processe. E o maior dos ativos, o território, carrega a maior das ressalvas: o Estado não o controla inteiro. Semente não é fruto. Confundir uma coisa com a outra é a forma brasileira da ilusão.

A REPRECIFICAÇÃO DAS SEMENTES

Esse arranjo poderia prosseguir como prosseguiu por décadas, não fosse um fato novo: o mundo começou a precificar as sementes a partir de uma lógica distinta. Se antes na era colonial a abundância imaginada tornava invisível qualquer limite, agora a finitude é dado estruturante. A transição energética transformou minerais antes laterais em insumos de segurança nacional. O clima instável transformou comida, água doce e floresta em ativos estratégicos. A disputa entre Estados Unidos e China transformou fornecedores confiáveis em parceiros cortejados. Ativos que valiam pouco porque ninguém os valorizava nesses termos estão deixando de valer pouco. É essa reprecificação, não qualquer virtude nova nossa, que reabre a janela brasileira.

Convém dizer que a reprecificação não é apenas um fenômeno econômico. É uma agenda em construção, com autores, interesses e regras. Quem escreve as regras decide o que será premiado: o ativo bruto ou o ativo convertido; a mina ou a manufatura; a floresta como estoque alheio de carbono ou como plataforma de uma bioeconomia própria. O Brasil já mostrou, em Belém, que pode segurar a caneta quando articula um mecanismo florestal em seus próprios termos. A questão é se fará disso hábito.

O custo de não fazer tem endereço. Quando se anunciou a compra, por uma empresa norte-americana, da mina goiana descrita como uma das poucas produtoras em escala de terras raras magnéticas fora da Ásia, associada a contrato longo de fornecimento ao exterior, ficou exposta a ausência de uma mesa brasileira com mandato para ter uma opinião estratégica sobre o assunto. O caso, sob exame das autoridades competentes, condensa o dilema. De um lado, todos querem o que temos. De outro, um contrato de longo prazo pode trancar a reserva na cadeia produtiva de outro país sem que o valor seja agregado aqui. Com coordenação, a rivalidade entre potências vira leilão a favor do Brasil. Sem ela, vira leilão do Brasil.

Há quem veja nessa disputa a obrigação de escolher um lado. O momento empurra nessa direção: Washington tende a transformar lealdade em critério econômico; Pequim oferece o conforto de comprar o que produzimos, muitas vezes na forma em que produzimos. As duas ofertas podem, se aceitas sem filtro, conservar o país no degrau de baixo da escada: fornecedor de matéria bruta de projetos alheios. A régua brasileira não deve ser a bandeira; deve ser o adensamento. Interessa o negócio que constrói capacidade em solo brasileiro, qualquer que seja o passaporte do investidor. Não interessa o que esvazia essa capacidade. Preservar margem de escolha não é indecisão; é a única postura racional de quem ainda tem tudo a converter.

A ressalva maior está na Amazônia. Ali, o maior ativo do país e o maior déficit do Estado ocupam o mesmo chão. A floresta cujo valor climático o mundo começa a reconhecer é a mesma em cujos rios facções montam rotas, em cujas cidades o crime disputa lealdades e em cujo subsolo o garimpo ilegal transforma território em capital ilícito. A consequência é simples: ninguém remunera de modo durável uma floresta que o vendedor não controla. Mas controle não significa apenas presença armada. Significa ordem legal, economia legal, cidade legal, crédito, justiça, escola, saúde, título e segurança ao mesmo tempo. O Estado que só chega fardado perde a disputa pela lealdade cotidiana. O Estado que não chega perde a soberania. Um ativo que o Estado não controla não é um ativo; é uma hipoteca.

CONCLUIR, COORDENAR E LIDERAR

À condição descrita corresponde uma doutrina, que convém enunciar com a secura das coisas sérias. O objetivo organizador do Estado brasileiro na próxima década deve ser a conversão: transformar sementes de poder em poder efetivo. Tudo o que serve a esse objetivo é prioritário; o que não serve, espera. A doutrina se desdobra em três verbos, concluir, coordenar e liderar, e cada verbo em três atos.

Primeiro, concluir o Estado inacabado, porque não se coordena o que não se controla. O ato inicial é um comando federativo de controle territorial da Amazônia, com mandato plurianual, orçamento protegido e uma métrica pública: presença efetiva do poder público onde hoje ela é intermitente ou cedida. O segundo é atacar o crime onde ele é mais vulnerável, no dinheiro: inteligência financeira contra facções, rastreabilidade plena do ouro, asfixia dos fluxos que transformam floresta em capital ilícito. O terceiro é fazer das cidades amazônicas a base da soberania cotidiana: escola, saúde, regularização fundiária, justiça, crédito e infraestrutura urbana. A floresta em pé dependerá, em grande medida, de cidades capazes de sustentá-la.

Segundo, coordenar, porque ativos dispersos viram ativos alheios. O quarto ato é criar um mecanismo brasileiro de revisão de investimento estrangeiro em ativos estratégicos, com poder de examinar, condicionar e, em casos extremos, recusar operações que comprometam segurança econômica ou capacidade futura. O quinto é transformar o instinto do 'refino fica aqui' em regra de Estado: uma política nacional de minerais críticos que condicione acesso a reservas, financiamento e licenças ao processamento e à agregação de valor no Brasil, sem discriminar por origem do capital. O sexto é construir uma máquina permanente de conversão: prospecção estratégica, priorização interministerial, estruturação de projetos, engenharia financeira, licenciamento, contratos-padrão e monitoramento de entrega, sob quadros e mandatos que atravessem governos.

Terceiro, liderar, porque as regras que decidirão quanto valem as sementes estão sendo escritas agora. O sétimo ato é institucionalizar a coalizão dos países de floresta em torno de mecanismos de remuneração da conservação, integridade de carbono e bioeconomia, convertendo lançamento diplomático em regime permanente. O oitavo é levar a mesma lógica ao subsolo: um foro de países produtores de minerais críticos que premie processamento local, transparência contratual e transferência tecnológica, para que os donos das reservas deixem de competir pelo privilégio de exportar barato. O nono é reassumir a liderança regional pela cooperação contra o crime transnacional: inteligência compartilhada, controle de rios, portos e fronteiras, rastreabilidade de ouro, armas e fluxos financeiros. Liderar, aqui, não é brilhar em cúpulas. É escrever regras que valorizem o ativo convertido.

Esses atos não pedem um Estado sem controles. Ao contrário: quanto mais protegido for o núcleo estratégico, mais exigente deve ser sua prestação de contas. Mandato, orçamento e estabilidade precisam vir acompanhados de metas públicas, auditoria, transparência e revisão periódica. O insulamento que serve ao Estado não é licença para tecnocracia autossuficiente; é proteção contra o varejo político em troca de responsabilidade superior.

O SARRAFO, O MÉTODO E O RELÓGIO

Nove atos não esgotam o Brasil, e a lista fará falta a muitos leitores. Nada se disse, senão lateralmente, de tributos, educação, produtividade, saúde, defesa, desigualdade ou inovação ampla. A omissão é deliberada. Essas agendas têm defensores, órgãos e orçamentos. O fundamento aqui discutido, converter ativos em poder, quase nunca tem dono institucional. Por isso precisa ser eleito. É essa, no fim, a justificativa deste ensaio.

Também não se dirá qual governo deve executar a doutrina. Os três verbos repartem-se entre sensibilidades distintas do país: a segurança que uma preza, a liderança internacional que outra cultiva, a coordenação econômica que falta a ambas. Nenhum campo pode reivindicar a doutrina sem se obrigar a executá-la; nenhum pode recusá-la sem confessar indiferença ao poder brasileiro. Ela pertence ao Estado, se o Estado a quiser.

Será preciso refundar o Estado para executar essa doutrina? Não. A via constituinte é improvável, perigosa e autodestrutiva: o novo Estado sairia da pena do velho pacto. Mudar o texto não basta para mudar a conduta. O método brasileiro mais eficaz foi outro: avançar por enclaves, como fizeram a Embrapa, o Itamaraty, o Plano Real e a autonomia do Banco Central. Mas a etapa atual exige enclaves mais complexos. Em viradas históricas, sociedades sadias precisam saber recentralizar o que a rotina dispersou: concentrar decisão, execução e responsabilidade sem abolir a política. Governa-se com o pacto; converte-se apesar dele. O núcleo da conversão deve ser pequeno, protegido e útil: pequeno para não substituir o governo; protegido para não ser devorado pela governabilidade; útil para produzir resultados e defensores próprios. No centro do método, a implementação. Sem preparação de projetos, a mina continua bruta, a floresta promessa, a cidade amazônica abandono e a diplomacia prestígio. Prestígio não adensa a cadeia produtiva.

O tempo, esse, não é variável de escolha. A reprecificação das sementes já começou. Os ativos brasileiros entrarão em cadeias internacionais com ou sem estratégia nacional; contratos serão assinados com ou sem uma mesa brasileira; padrões climáticos e minerais serão escritos com ou sem a nossa caneta. Países que confundem o relógio da transformação mundial com o relógio do ciclo eleitoral costumam acordar com os ativos vendidos e as regras prontas.

Resta a pergunta do leitor sorridente da primeira página: é possível? A resposta honesta é a mesma do início. O sarrafo está alto porque é ali o seu lugar. A alternativa a tentar nós conhecemos bem: continuar sendo, com pontualidade impecável, o país do futuro.

Recebido: 13 de maio de 2026

Aceito para publicação: 31 de agosto de 2026

Copyright ©2026 CEBRI-Revista. Este é um artigo em acesso aberto distribuído nos termos da Licença de Atribuição Creative Commons que permite o uso irrestrito, a distribuição e reprodução em qualquer meio desde que o artigo original seja devidamente citado.

PUBLICAÇÕES RELACIONADAS