Julia Dias Leite
Diretora-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI). Recentemente, assumiu como membro do Conselho Consultivo do Instituto Italiano de Estudos Políticos Internacionais (ISPI), think tank sem fins lucrativos, fundado em Milão, Itália, em 1934. No Brasil, atua igualmente como presidente do Conselho de Administração da Piemonte Holding e como membro do Conselho Administrativo da Elea Digital, empresa de capital aberto no setor de infraestrutura digital. É membro do Conselho Superior de Comércio Exterior (COSCEX) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Além disso, ela integra o Conselho da Cidade, órgão da Prefeitura do Rio de Janeiro, e o Conselho do Instituto Burle Marx. Formada em Direito pela Universidade Cândido Mendes, com MBA em Gestão de Negócios pela FGV, também colaborou como pesquisadora residente no Council of the Americas, em Nova York, apoiando trabalhos sobre a política externa brasileira.
Luciana Servo
Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), onde é também técnica de Planejamento e Pesquisa. Doutora em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG) e mestre, também em Economia, pela Universidade de São Paulo (FEA/USP), sendo especialista em economia da saúde. Servidora do Instituto desde 1998, é autora de diversos estudos sobre financiamento e gasto em saúde, contas de saúde, acompanhamento e análise das políticas públicas de saúde, mercado de trabalho e economia regional. Realizou e coordenou avaliações, incluindo as relacionadas ao Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP).
Raphael Azeredo
Atual presidente da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) O embaixador Azeredo é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília, com pós-graduação em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco. Diplomata desde 1993, dedicou a maior parte de sua carreira no Brasil ao multilateralismo, tendo ocupado os cargos de chefe de Divisão para Mudança do Clima e de diretor do Departamento para Temas Multilaterais Ambientais, entre outros. No exterior, serviu nas embaixadas em Washington, Buenos Aires, Lisboa e Ottawa, além de na missão permanente junto às Nações Unidas, em Nova York. Sua missão mais recente foi a de embaixador plenipotenciário em Paramaribo (2021-2024).
Segue a entrevista concedida por escrito aos editores da CEBRI-Revista.
Como grupo de engajamento oficial do G20, espera-se que o T20 influencie os negociadores com recomendações. Como as senhoras e o senhor avaliam os canais disponíveis para isso e que estratégias adotar para maximizar os resultados?
Julia Dias Leite: O compromisso do T20 Brasil de estreitar relações com think tanks brasileiros e internacionais e com os tomadores de decisão começou antes mesmo de o Brasil assumir a presidência do G20. Em agosto de 2023, CEBRI, FUNAG e IPEA, membros do comitê realizador do T20, promoveram o seminário internacional Thinking 20: A Global Order for Tomorrow. Tivemos a participação de Jeffrey Sachs, professor e diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia; de representantes do T20 da Índia e da África do Sul; e dos embaixadores Maurício Lyrio, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério de Relações Exteriores, coordenador da Trilha Sherpa, e Tatiana Rosito, senior fellow do CEBRI e secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, coordenadora da Trilha de Finanças.
Em julho de 2024, logo depois da Conferência de Midterm do T20, o G20 Brasil inovou e, pela primeira vez, representantes dos grupos de engajamento da sociedade civil sentaram-se à mesa com os sherpas de todos os países e organismos internacionais para apresentar suas recomendações de políticas. O T20 foi um dos grupos de engajamento que, a pedido da presidência brasileira do G20, antecipou para o meio do ano a entrega do Communiqué, que era tradicionalmente feita logo antes da Cúpula de Líderes. Essa antecipação foi crucial para que os negociadores tivessem tempo de ler e introjetar as recomendações, aumentando a eficácia do T20 na sua missão de influenciar a declaração oficial do G20.
[A] antecipação [da entrega do Communiqué] foi crucial para que os negociadores tivessem tempo de ler e introjetar as recomendações, aumentando a eficácia do T20 na sua missão de influenciar a declaração oficial do G20.
Outra inovação do T20 Brasil foi a entrega aos líderes do G20, em novembro, de um documento com roteiros para tirar do papel algumas das principais recomendações de políticas públicas feitas pelo grupo de engajamento e apresentadas em julho, no Communiqué. Essas rotas para implementação foram resultado de seis meses de discussões com a participação de 182 entidades e institutos dos membros do bloco e de países convidados. Trataram dos principais temas da agenda global: mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável, redução das desigualdades, transições energéticas e transformação digital, comércio internacional e reforma das instituições multilaterais. Os documentos foram revisados por organizações dos conselhos consultivos do T20, com participação de instituições globais como o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio, para ampliar o impacto das recomendações. Esse processo foi muito rico e representou, além de um passo concreto, o envolvimento de centenas de pessoas com influência e disposição para levar adiante o trabalho. O CEBRI, que ao lado de IPEA e FUNAG foi o coordenador do T20, segue discutindo essas rotas, como, por exemplo, no Programa de Transição Energética, que terá sua segunda fase apresentada neste semestre.
Neste ano, teremos dois eventos no Brasil que serão fundamentais para a consolidação de consensos firmados no G20 e para influenciar os tomadores de decisão – a cúpula do BRICS+ e a COP 30. O fortalecimento do diálogo entre os think tanks, nacional e internacionalmente, foi muito importante e nos permitirá avançar durante esses eventos. Esse foi também o objetivo das mesas de discussão que o CEBRI promoveu na Climate Week, em Nova York, em setembro, com debate aprofundado dos temas estratégicos que ligam os grandes fóruns multilaterais. Para atuarmos ainda mais fortemente na COP 30, que vai tratar de temas essenciais e que pautaram o G20, como a transição energética e as mudanças climáticas, estamos articulando a criação do T30, um grupo que terá justamente o objetivo de articular e pressionar por medidas e resultados. O fato de os países da Troika de 2024 – Índia, Brasil e África do Sul – integrarem o BRICS ajuda a levar para os debates do bloco as decisões do G20.
Luciana Servo: O T20 é o grupo de engajamento dos think tanks e instituições de pesquisa formadoras de opinião sobre diversos temas. Essa diversidade e capacidade de trabalhar vários temas relevantes no debate internacional é uma das forças do T20. Muitas dessas instituições têm experiência na produção de conhecimento para influenciar o debate público e em estabelecer canais de comunicação com os gestores das políticas públicas.
O processo de trabalho do T20 envolve a composição de forças-tarefas em torno de temas prioritários, os quais, em geral, dialogam com as prioridades de cada presidência, mas trazem também algumas de presidências anteriores. São produzidas notas de política (policy briefs) a partir de uma chamada pública que envolve não só as instituições que compõem as forças-tarefas, mas outras instituições nacionais e internacionais. As notas são a base para a elaboração de recomendações a serem entregues para as Trilhas Sherpa e Financeira de governo do G20.
Desde o começo, o comitê organizador do T20 estabeleceu um canal de comunicação com os coordenadores da Trilha Sherpa e Financeira, os quais participaram da reunião inicial (Inception) do T20. Nesse momento, esses representantes apresentaram as prioridades e expectativas do governo para a presidência brasileira do G20. Foram convidados, também, para a conferência de meio termo (Midterm), na qual foram apresentadas e entregues as recomendações do T20 que compuseram Communiqué para o G20.
Destaco, também, a construção pelo governo brasileiro de momentos de diálogo com todos os grupos de engajamento, denominado de G20 Social. Foram propostos momentos de diálogo dos grupos de engajamento entre si e com os coordenadores do G20 Social, incluindo dois importantes momentos, em julho, de entrega das recomendações para os representantes dos governos dos países do G20 nas Trilhas Sherpa e Financeira.
Todos esses canais foram importantes para estabelecer diálogos entre o T20 e as trilhas de governo, permitindo que todos os países do G20 conhecessem mais de perto o resultado do trabalho realizado por esse grupo de engajamento.
Além da entrega das recomendações, o T20 também se preocupou em continuar seu trabalho no segundo semestre com um foco nas possibilidades de implementação do que foi proposto. Essas estratégias de implementação compuseram roadmaps para recomendações-chave, os quais foram incorporados à versão revista e ampliada do Communiqué que foi entregue durante da Cúpula do T20
A expectativa é que o diálogo em torno das recomendações do T20 e das estratégias de implementação continue nos processos de negociação entre governos e que possa avançar durante outros processos multilaterais, inclusive aqueles envolvendo a próxima presidência do G20 África do Sul, o sistema das Nações Unidas, o BRICS e a COP 30.
A expectativa é que o diálogo em torno das recomendações do T20 e das estratégias de implementação continue nos processos de negociação entre governos e que possa avançar durante outros processos multilaterais, inclusive aqueles envolvendo a próxima presidência do G20 África do Sul, o sistema das Nações Unidas, o BRICS e a COP 30.
Raphael Azeredo: Como fundação vinculada ao Itamaraty, a FUNAG atuou como canal privilegiado de contato com o Ministério, imprescindível para a interlocução com os diplomatas, negociadores da Trilha Sherpa e da Trilha Financeira, para maior direcionamento e peso às deliberações travadas em âmbito do T20, assim como de suas recomendações. Nesse sentido, essa interlocução orientou o cronograma de atividades do T20 Brasil ainda na elaboração da Nota Conceitual, para atender à solicitação de entregar as recomendações com maior prazo para análise dos líderes do G20.
Uma providência inédita no âmbito do T20 foi antecipar a apresentação das recomendações aos líderes para a Midterm Conference. Em termos procedimentais, exigiu maior esforço do comitê organizador e da comunidade de especialistas do T20 para a produção dos policy briefs em seis meses. Mas propiciou maior tempo de análise para os líderes do G20, com reflexo importante na incorporação de recomendações nas declarações finais. Vários grupos de trabalho da Trilha Sherpa, assim como da Trilha Financeira, incorporaram recomendações formuladas pelos grupos de engajamento, incluindo o T20. Algumas dessas recomendações também apareceram nas Declarações Ministeriais e no Communiqué dos ministros de Finanças e presidentes de Banco Central. Alguns exemplos de menção às recomendações do T20 pelos grupos de trabalho do G20: Agriculture WG: Mention T20 – Strengthen Multilateral Cooperation under the Global Alliance against Hunger and Poverty; Digital Economy WG; Health WG; and Global Initiative on Bioeconomy.
De que forma a integração bem-sucedida entre as três instituições ajudou a alinhar e tornar mais eficazes as propostas formuladas?
JDL: CEBRI, IPEA e FUNAG trouxeram visões diferentes e complementares para o processo de organização do T20 Brasil. Como única das três instituições que não é governamental, o CEBRI procurou trazer múltiplas vozes da sociedade civil para o debate do T20, entendendo que o papel do grupo não era apenas subsidiar as prioridades da presidência brasileira, mas também oxigená-las, colocando novas ideias na mesa. Desde o início dos trabalhos, essa integração foi bem-sucedida, e coube a nós esse papel de expandir os horizontes, ir além das prioridades expostas pelo governo brasileiro e ter essa multiplicidade de pensamentos refletida nos documentos finais.
LS: IPEA, CEBRI e FUNAG se reuniram em maio de 2023 para começar a pensar como organizar o T20 durante a presidência brasileira. Esse momento de diálogo entre as instituições envolveu, também, acompanhar a presidência indiana, que precedeu o G20 Brasil, com um olhar mais atento como membros do comitê que organizaria o T20 Brasil.
Os processos que precederam a presidência brasileira nos ajudaram a criar um trabalho interinstitucional e diálogos para convergências sobre os resultados que esperamos do T20 Brasil, bem como das diretrizes para sua organização. Cada uma das três instituições trazia uma perspectiva diferente a partir da sua inserção institucional:
O IPEA, como instituição do Estado brasileiro com experiência em pesquisa, avaliação e assessoria ao governo brasileiro, bem como participação em fóruns internacionais acadêmicos, com interação com outras instituições de pesquisa, think tanks e com organismos internacionais.
A FUNAG, como instituição do Estado brasileiro vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, com experiência na relação com instituições de pesquisa nacionais e internacionais no campo das relações internacionais e promoção do debate público estratégico nesse campo.
O CEBRI, como um centro de reunião de vários atores que atuam no campo de relações internacionais, principalmente diplomatas e embaixadores da ativa e aposentados, mas também pessoas que ocuparam posições de liderança no executivo federal, constituindo-se um networking com tomadores de decisão capazes de influenciar a agenda internacional do Brasil.
As três instituições tinham experiência na realização de eventos envolvendo diálogos interinstitucionais, cada qual em seu campo de atuação e a partir de suas especialidades. Ao mesmo tempo que as experiências diversas trouxeram desafios, apresentaram também oportunidades de aprendizado mútuo. Nesse sentido, os diálogos estabelecidos desde antes de o Brasil assumir a presidência do G20 criaram, também, as bases para o relacionamento dessas três instituições com os outros mais 180 think tanks e instituições de pesquisa que fizeram parte do T20 Brasil.
Uma etapa importante foi o compartilhamento de experiências para a seleção dos líderes das forças-tarefas e, a partir do diálogo com essas pessoas, buscar convergir na seleção dos membros de cada força-tarefa. A seleção de lideranças comprometidas com o processo do T20 foi parte importante do sucesso em estabelecer convergências para a elaboração das recomendações.
RA: CEBRI, IPEA e FUNAG são instituições com capacidades distintas que, no desenvolvimento das atividades do Comitê Organizador do T20 Brasil, se complementaram. Essa, talvez, tenha sido a característica fundamental para a bem-sucedida integração de esforços no sentido de dar curso a um programa de atividades de continuidade, mas também de inovação com o trabalho de propor a reflexão sobre a implementação das recomendações no período entre a Midterm Conference e o Summit.
CEBRI, IPEA e FUNAG são instituições com capacidades distintas que, no desenvolvimento das atividades do Comitê Organizador do T20 Brasil, se complementaram.
A integração das instituições que compuseram o comitê organizador do T20 Brasil foi, de fato, fundamental para o bom desenvolvimento das dinâmicas pensadas e dos eventos organizados em âmbito do grupo de engajamento; buscou-se o consenso em todas as decisões importantes do processo, assim como houve esforço conjunto das equipes de analistas das três instituições para sintetizar dez recomendações transversais que refletissem o trabalho realizado pelas seis forças-tarefas, que apresentaram – cada uma delas – cinco recomendações específicas sobre seus temas de trabalho. Importante destacar os papéis, além das presidências das instituições, dos analistas de cada uma delas que se envolveram diretamente no processo do T20 Brasil.
O T20 Brasil foi liderado em quase todo o processo por três mulheres nas presidências do CEBRI, do IPEA e da FUNAG. Como as senhoras e o senhor avaliam o papel da liderança feminina neste processo?
JDL: Acredito que o fato de mulheres estarem nas chefias das três instituições é um reflexo do avanço que o Brasil vem fazendo na promoção da igualdade de gênero, embora ainda haja um longo caminho para a consolidação desses direitos. No nosso caso, a liderança feminina no T20 assegurou que esse aspecto permeasse todas as decisões e recomendações de políticas públicas, seguindo a diretriz do governo brasileiro para a diversidade e a inclusão.
LS: O conhecido teto de vidro e os labirintos enfrentados pelas mulheres para ocupar cargos de alta liderança fazem com que sua representatividade nesses espaços seja minoritária. Assim, ao mesmo tempo que se têm mulheres com níveis educacionais cada vez mais elevados e compondo a maioria da população brasileira e mundial, a inequidade para alcançar cargos de liderança é bem documentada na literatura nacional e internacional. Essas barreiras e os processos discriminatórios a elas associados produzem ineficiência relacionada, entre outras, à subutilização do potencial contributivo da mulher para o mundo do trabalho e em sua representação política-institucional.
Em 2024, quando o Brasil assumiu a presidência do G20, em uma coincidência associada ao momento histórico vivido pelo país em que se buscava reforçar a equidade de gênero, as três instituições que compunham o comitê organizador do T20 eram lideradas por mulheres.
Em 2024, quando o Brasil assumiu a presidência do G20, em uma coincidência associada ao momento histórico vivido pelo país em que se buscava reforçar a equidade de gênero, as três instituições que compunham o comitê organizador do T20 eram lideradas por mulheres. Esse momento foi repleto de significados importantes e com reflexos para a construção da agenda. A representatividade trouxe um compromisso imediato de buscar que essa não ficasse somente no comitê organizador, mas, também, se refletisse nas lideranças das forças-tarefas. Além disso, formulou-se como critério que os policy briefs também buscassem sempre ter pelo menos uma mulher como coautora. Essa constitui-se em uma ação afirmativa para reduzir a invisibilidade da produção de conhecimento por mulheres, permitindo trazer para o palco do debate internacional, por meio do T20, essa grande capacidade para participar e liderar discussões em processos multilaterais.
Os resultados foram observados no campo da produção de textos, mas, também, no campo simbólico – visto que mulheres em cargos de liderança mostram para outras mulheres que elas podem estar naquela posição. Ao mesmo tempo, para alcançar essas posições, quando a norma social é contrária a isso, faz-se necessário estabelecer um ambiente com visão coletiva e mais solidária. Essa estratégia, ao mesmo tempo simbólica e concreta, se refletiu no próprio processo de cooperação para produzir convergências de visões sobre os resultados esperados para o T20 Brasil sob a liderança de mulheres. A capacidade demonstrada de produzir convergência, liderar conjuntamente e com outras mulheres e homens que atuam em agendas internacionais foi uma marca – e um marco – importante do T20 Brasil e refletiu-se no sucesso por ele alcançado.
O simbolismo e o sucesso dessa atuação de um T20 liderado por mulheres do Sul Global têm repercussões ao deixar clara a capacidade e competência de atuar para a maior efetividade da cooperação internacional, em temas relacionados à inclusão social, às reformas institucionais da governança global, às estratégias para lidar com questão ambiental, bem como seu conhecimento sobre arquitetura financeira internacional, equidade, entre outros temas.
RA: Foi uma coincidência fortuita que o processo do T20 Brasil tenha se desenvolvido quase que em sua totalidade sob as presidências de mulheres nas três instituições-parte do comitê organizador do T20 Brasil; esse fato confirma a relevância do papel das mulheres em cargos estratégicos nos mais diversos setores da política e da economia nacionais e internacionais.
Todos os estudos apresentados tiveram participação de pelo menos uma pesquisadora; e durante a realização da Inception Conference, da Midterm Conference e do Summit, a maioria dos participantes era de mulheres.
Mas não sejamos ingênuos, ainda temos muito o que evoluir nesse sentido: as próprias discussões travadas no T20 Brasil levantaram questões a respeito de participação, igualdade, reconhecimento... É fundamental que as mulheres estejam no centro do debate, de forma que toda e qualquer decisão que diga respeito a elas passe efetivamente por elas.
Em 2024, a Troika do T20 reuniu Brasil, Índia e África do Sul, países com histórico de cooperação em fóruns multilaterais. Como se deu a integração com os think tanks desses países? Houve compartilhamento de informações e boas práticas?
JDL: O fato de os três países serem economias em desenvolvimento já foi um fator inicial de aproximação e união de propósitos. As presidências da Índia (2023) e do Brasil (2024) compartilharam o compromisso com o desenvolvimento sustentável, que está entre as prioridades da África do Sul, ao lado da inclusão, do combate à fome, às mudanças climáticas e do uso das tecnologias digitais e de Inteligência Artificial. A Índia deu destaque para energia limpa, cidades sustentáveis e segurança alimentar. Aqui a ênfase foi para mudanças climáticas, bioeconomia, segurança alimentar e combate à desigualdade, especialmente no contexto da Amazônia e da transição energética justa. A inclusão social e a redução das desigualdades são centrais para os três países. A Índia ressaltou o empoderamento feminino e a inclusão digital, e o Brasil deu foco ao combate à fome e à pobreza, com a criação da Aliança Global contra a Fome. A inovação tecnológica e infraestrutura digital é um dos temas prioritários para a presidência sul-africana, assim como foi para a Índia. O assunto teve destaque no T20 Brasil, inclusive com a proposta de criação da plataforma Data20, um fórum de governança de dados que visa integrar as discussões entre grupos de engajamento, promovendo cooperação em estratégias de dados. Durante todo o ano passado, trabalhamos com os times da África do Sul, em diversos eventos e reuniões, e fizemos uma transição que procurou facilitar o aproveitamento do que foi feito até aqui, com a continuidade das discussões das políticas recomendadas.
No entanto, embora o Brasil tenha mantido diálogo constante com as presidências anteriores, de Índia e Indonésia, e com a atual, no sentido de compartilhar experiências, aprendizados e boas práticas, faltam processos de monitoramento e avaliação de impacto das recomendações do T20 como um todo. Não existem banco de dados, processos para gestão do conhecimento produzido ou sistematização de resultados. O T20 é um processo complexo que envolve muitos interlocutores para construção de consenso e produção de recomendações em um curto período de tempo, além do esforço necessário para captar recursos. Se, por um lado, é possível entender que não sobre espaço na agenda para estruturar um sistema de gestão de conhecimento e avaliação de impacto, por outro, a contribuição do T20 poderia se tornar mais efetiva a partir da estruturação de um repositório de conhecimento para evitar que o trabalho se perca de uma presidência para outra.
LS: A articulação dos países do G20 expandiu-se ao longo dos anos em sua temática, indo muito além dos aspectos macroeconômicos e financeiros, para incluir cada vez mais a agenda de desenvolvimento sustentável, entre outras. Nesse processo de expansão tem-se um momento histórico de presidências pro-tempore do Sul Global no G20. A Troika do Sul Global no G20 pode ser denominada Troika+1, formada por esses três países, Índia, Brasil e África do Sul, e considerando a Indonésia que precedeu a presidência indiana.
Essa Troika+1 trouxe para o centro do debate do G20 temas de interesse dos países em desenvolvimento. Destacam-se a importância de respostas que repensem estratégias de cooperação, fortalecendo a cooperação Sul-Sul, sem reduzir a importância da cooperação Norte-Sul, em temas de recuperação econômica e social no período pós-pandemia da Covid-19. Demandam-se novos modelos de cooperação mais horizontais, participativos e contextualizados às realidades dos países em desenvolvimento. Essa visão incorpora também a necessidade de pensar as respostas às mudanças climáticas a partir das perspectivas e necessidades dos países em desenvolvimento – a redução das desigualdades, da pobreza e ampliação da segurança alimentar, o desenvolvimento inclusivo, com incorporação e transferência de tecnologias, o combate às discriminações –, bem como repensar os processos de desenvolvimento e incorporação da infraestrutura digital e inteligência artificial. Estabeleceu-se, assim, um espaço diferenciado de cooperação internacional para o desenvolvimento a partir da visão e das prioridades estabelecidas pelos países emergentes e em desenvolvimento.
A organização do T20 vai refletir esse momento histórico com trocas de experiência e diálogos com grande e efetiva participação de think tanks dos países da Troika+1, e desses com outros países em desenvolvimento e desenvolvidos. Foram diálogos entre mais de 180 instituições de todos os países do G20 e mais a União Africana.
A organização do T20 vai refletir esse momento histórico com trocas de experiência e diálogos com grande e efetiva participação de think tanks dos países da Troika+1, e desses com outros países em desenvolvimento e desenvolvidos. Foram diálogos entre mais de 180 instituições de todos os países do G20 e mais a União Africana. Na formação da agenda de prioridades, o G20 Brasil trouxe temas das presidências anteriores e apresentou propostas como, por exemplo, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. As recomendações do T20 refletiram essas prioridades, com destaque para aquelas relacionadas a essa Aliança, mas também para a importância de pensar novos modelos de cooperação internacional que fortalecem sistemas de proteção social que apoiem as pessoas nas respostas às crises e choques, com garantias de emprego digno, acesso à saúde e educação, proteção aos grupos populacionais mais vulneráveis, com combate às discriminações de gênero, raça e etnia.
O T20 reforçou a importância da criação de uma tributação global sobre os “super-ricos” tanto para produção de potenciais impactos distributivos como, também, como fonte de financiamento para agendas de desenvolvimento de responsabilidade globais efetivamente compartilhadas, incluindo as mencionadas anteriormente e aquelas relacionadas às iniciativas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Trouxe a importância da agenda de reforma dos bancos multilaterais e otimização do acesso aos fundos para financiamento da agenda 2030, de forma sustentável, transparente e com padronização dos critérios de alocação de recursos que priorizassem as populações mais vulneráveis e os países de baixo desenvolvimento e em desenvolvimento. Destacou um processo horizontal, provendo mecanismos para construção de capacidades em cada país.
RA: Os processos do T20 pressupõem uma continuidade que se apresenta nas cerimônias para a passagem de coordenação e organização das atividades; de forma geral, as transições foram realizadas em cooperação mútua entre os think tanks dos comitês organizadores, tanto da Índia quanto da África do Sul.
Ao final do Summit, no Rio de Janeiro, foi realizada uma reunião de transição entre as instituições-parte do comitê organizador do T20 Brasil e as do T20 África do Sul, para discussão de desafios enfrentados, compartilhamento de experiências e boas práticas, visando à continuidade e evolução institucional nos processos do T20. É fundamental que o T20 tenha uma lógica de funcionamento estabelecida e que tenha convergências em seus temas para que esse grupo de engajamento seja cada vez mais relevante no processo do G20 como um todo.
Quais lições aprendidas podem ser destacadas na gestão dos processos e na construção dos conteúdos do T20? Houve desafios imprevistos?
JDL: A experiência da antecipação do Communiqué foi extremamente positiva, e esperamos que se repita na presidência sul-africana. Foi a decisão que nos deu tempo e musculatura para integrar as instituições e think tanks e produzir um segundo documento com orientações práticas.
Alguns legados de todo o processo incluem o investimento em estruturação de redes, uma vez que, se por um lado a soma das experiências e capacidades de cada instituição agrega valor, a gestão compartilhada é sempre um desafio. As instituições devem ter clareza sobre suas limitações e capacidades institucionais disponíveis para compor o comitê de coordenação. Processos claros e simplificados, cronograma e prazos alinhados evitam ruídos e riscos. Outro legado é o canal de comunicação, construído sobre muito diálogo, transparência e capacidade de articulação e transformação de interesses diferentes em objetivos comuns. E o próprio Communiqué, resultado da construção de propostas com base em consenso, superando os desafios naturais da elaboração de recomendações mais específicas. Uma forma de lidar com isso foi aprofundarmos alguns dos temas com os roadmaps de implementação.
LS: Dentre as lições apreendidas destaco a importância de se estabelecer um diálogo prévio com os think tanks que lideraram anteriormente o T20. Esse processo de trocas de experiências é fundamental para avançar em diálogos mais significativos num processo cumulativo e mais efetivo dentro do T20 e na sua interação com os líderes do G20. Adicionalmente, manter o foco em questões prioritárias e estratégicas é fundamental para evitar a dispersão do debate, o que pode implicar em baixa efetividade das recomendações do T20.
Além dos desafios relacionados à coordenação do diálogo entre mais de 180 think tanks, o fato de se ter estabelecido o mês de julho como data limite para entrega das recomendações para o G20 fez com que se acelerasse o processo de elaboração dos policy briefs e do Comunicado do T20. Apesar de este ter sido um grande desafio, foi também uma oportunidade, visto que se estabeleceu um momento concreto para entrega dessas recomendações aos representantes dos líderes do G20.
Apesar das trocas prévias entre os think tanks que organizam o T20, há pouca documentação sobre o processo ao longo dos anos. Um processo mais institucionalizado de documentação e avaliação poderia tornar o T20 mais efetivo a partir de monitoramento e avaliação da sua incidência durante cada presidência do G20 e ao longo do tempo.
Outro ponto relevante é como financiar o T20 durante cada presidência pro tempore. Essa questão impõe desafios e limitações para a organização de cada momento de diálogo entre os think tanks, mas, também, destes com as lideranças de governo.
RA: Os processos do T20 são de natureza complexa, tendo em vista os fluxos para submissão, análise e publicação de policy briefs e consequente elaboração do Communiqué, somados aos esforços de engajamento da comunidade T20 – no Brasil ainda mais desafiador, devido ao baixo índice de participação de especialistas e instituições brasileiras nas edições anteriores do T20. Nesse aspecto, o trabalho do comitê organizador foi efetivo: participaram mais 70 instituições brasileiras nos processos do T20 Brasil.
O maior desafio foi a realização e o cumprimento do cronograma de atividades com financiamento muito limitado. o que refletiu na realização por videoconferência da Inception Conference e o envolvimento direto do quadro de analistas e técnicos das três instituições para desempenho de funções de secretariado do T20.
A integração desse quadro diverso de analistas e técnicos [das três instituições para desempenho de funções de secretariado do T20] propiciou a construção de um espaço novo para além da formulação das recomendações, avançando no escopo do ciclo de políticas públicas para trazer propostas de implementação das recomendações apresentadas (...).
A integração desse quadro diverso de analistas e técnicos propiciou a construção de um espaço novo para além da formulação das recomendações, avançando no escopo do ciclo de políticas públicas para trazer propostas de implementação das recomendações apresentadas, na percepção de que aos gestores interessa não só identificar o problema, mas ter diretrizes de como tratar as questões. Essa perspectiva foi inclusive verbalizada nas falas dos representantes das Trilhas Sherpa e Financeira na Midterm Conference e no Summit.
Entrevista enviada por mídia escrita pelos entrevistados entre 17 e 21 de fevereiro de 2025.
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