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Industrializando a vantagem verde

O Brasil em meio à transição

Resumo

A transição para uma economia de baixo carbono abre uma oportunidade estratégica para o Brasil: transformar sua vantagem verde – energia limpa, biomassa, biodiversidade, minerais e base industrial – em sofisticação produtiva, tecnologia e inserção internacional qualificada. Para isso, o país precisa evitar a dependência da exportação de produtos primários, coordenar políticas públicas, escolher rotas tecnológicas com discernimento e combinar ambição climática com desenvolvimento industrial.

Palavras-chave:

transição energética; política industrial; competitividade internacional; baixo carbono fóssil; desenvolvimento socioeconômico
Tempo e rios amazônicos. Ilustradora: Lívia Serri Francoio para Arapyaú.

A transição para uma economia de baixo carbono oferece ao Brasil uma oportunidade rara. Talvez a primeira, em décadas, de ampliar sua participação no comércio internacional de produtos industrializados a partir de uma vantagem competitiva que poucos países conseguem reproduzir: a capacidade de produzir com menor intensidade de carbono.

Mas essa oportunidade não se realiza automaticamente. Há uma pedra – muitas pedras – no meio deste caminho, no meio da transição para uma economia de baixas emissões. A forma de avançar nesses movimentos é decisiva – passamos da formulação de metas, promessas e visões de futuro, mas tampouco estamos no ponto de chegada, em que novas estruturas produtivas, tecnológicas e institucionais já estariam consolidadas. O Brasil, como o mundo, encontra-se no meio da transição.

É nesse estágio intermediário – o mid-transition – que os dilemas se tornam mais difíceis. As escolhas deixam de ser abstratas e passam a envolver investimentos concretos, infraestrutura, decisões de regulação, opção por rotas de tecnologia, financiamento, apenas para citar alguns pontos. É também nesse momento que surgem os maiores riscos: gargalos institucionais e tecnológicos, decisões que produzem dependências de longo prazo, transições incompletas, ganhos concentrados, regressões ambientais e novas formas de subordinação produtiva. São momentos decisivos para o sucesso ou insucesso da transição.

Mas, antes de tratarmos sobre o momento atual, no meio da transição, vamos situar de onde estamos chegando. 

O caminho para uma economia de baixas emissões está redefinindo os critérios de competitividade internacional. Governos, investidores e compradores começam a considerar não apenas preço, qualidade, produtividade e segurança de fornecimento, mas também, pouco a pouco, as emissões associadas à produção dos bens que consomem. Ainda de forma gradual e desigual, a intensidade de carbono passa a integrar decisões econômicas. Essa mudança pode favorecer o Brasil e precisa ser considerada no mid-transition.

Poucos países combinam, na mesma escala, energia renovável, biomassa, biodiversidade, água, recursos minerais, base agroindustrial, capacidade científica, parque industrial instalado, sistema financeiro (capital público e privado) sofisticado. Essa combinação confere ao país uma vantagem estrutural relevante. Porém, vantagem estrutural não é o mesmo que estratégia de desenvolvimento. A baixa intensidade de carbono fóssil não substitui produtividade, infraestrutura, inovação, segurança regulatória, financiamento competitivo ou capacidade tecnológica. Ela acrescenta uma nova dimensão à competição econômica internacional – mas só se transforma em desenvolvimento quando articulada a uma política deliberada de transformação produtiva.

Ao longo das últimas décadas, a reorganização da economia mundial, a ascensão da Ásia como plataforma manufatureira e a lógica de especialização difundida a partir dos anos 1990 reduziram a participação relativa do Brasil no comércio internacional de bens industrializados. Ao mesmo tempo, o país consolidou-se como um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, minerais, petróleo e outras matérias-primas. 

Por outro lado, o país preserva segmentos industriais capazes de disputar mercados globais em produtos de elevada complexidade. A indústria aeronáutica é o exemplo mais evidente, mas não o único. Há competências relevantes em máquinas e equipamentos, papel e celulose, produtos químicos, equipamentos elétricos, alimentos processados e outros nichos nos quais empresas brasileiras combinam escala, tecnologia, produtividade e inserção internacional.

Essas experiências demonstram que o Brasil é capaz de competir em mercados sofisticados. O desafio é fazer com que deixem de ser exceções e se tornem parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento. Como transformar vantagens naturais e energéticas em capacidades industriais, tecnológicas e institucionais duradouras?

Essa pergunta é especialmente importante porque as transições em curso são interdependentes. A transição energética não pode ser separada da transição produtiva. A transição ecológica não pode ser tratada como uma agenda isolada da inovação. A transição social não pode ser reduzida a compensações posteriores para grupos afetados. Energia, natureza, tecnologia, indústria, trabalho e território formam um mesmo sistema de escolhas. 

É por isso que falamos que a transição não é meramente energética. Ela é uma transição econômica, de se alterar não só a forma de fazermos as coisas ou como fazemos, mas também por que e a que custo, a serviço de quê. 

Por isso, o debate brasileiro não deveria se limitar a identificar quais setores sentem mais impactos com a desfossilização. A questão é como organizar uma transição capaz de elevar a complexidade econômica, reduzir emissões, proteger ativos naturais, ampliar capacidades tecnológicas, gerar empregos qualificados e evitar novas dependências estratégicas.

Esse é o ponto em que aparecem os principais gargalos institucionais. O Brasil tem abundância de diagnósticos, planos setoriais e instrumentos dispersos, mas ainda enfrenta dificuldades para coordenar políticas industriais, climáticas, energéticas, tecnológicas, comerciais e ambientais. A transição exige coordenação entre ministérios, agências reguladoras, bancos públicos, estados, municípios, universidades, empresas, organismos internacionais e sociedade civil. Sem essa coordenação, o país corre o risco de produzir políticas fragmentadas: incentivos sem metas claras, regulação sem previsibilidade, infraestrutura sem planejamento territorial, inovação sem escala produtiva e compromissos climáticos sem base industrial.

A governança da transição precisa lidar com escolhas seletivas, e este é um primeiro gargalo. Aqui, temos escolhas que significam renúncias. Ou isto ou aquilo, como o poema de Cecília Meireles. Recursos públicos e incentivos devem ser orientados por resultados. Não basta apoiar qualquer atividade apresentada como sustentável. Projetos devem ser avaliados por sua capacidade de combinar competitividade internacional, transformação produtiva, aprendizado tecnológico, empregos qualificados, redução consistente de emissões, integridade ambiental e contribuição para a resiliência do país. E significarão renúncia a outros caminhos. 

O segundo gargalo é tecnológico. Grande parte das soluções hoje tratadas como referência internacional foi concebida a partir das condições econômicas, energéticas e naturais de países desenvolvidos, especialmente europeus. É natural que essas economias priorizem tecnologias coerentes com sua infraestrutura, disponibilidade de recursos e interesses industriais. O problema começa quando essas escolhas são transformadas em padrão universal. Sempre dizemos que quando o assunto é transição energética, não serve a máxima "one size fits it all". 

Defender neutralidade tecnológica não significa ausência de estratégia. Significa avaliar rotas distintas com critérios rigorosos, comparáveis e transparentes: análise de ciclo de vida, rastreabilidade, uso do solo, proteção da biodiversidade, condições sociais e redução efetiva de emissões. Eletrificação, hidrogênio renovável, biocombustíveis, biomassa, biometano, soluções baseadas na natureza e outras tecnologias podem cumprir papéis diferentes em setores diferentes. O que deve determinar sua aceitação é o resultado.

Neutralidade entre rotas não deve ser confundida com neutralidade em relação à construção de capacidades tecnológicas nacionais. Se o Brasil deseja desenvolver soluções adaptadas às suas características, precisa ampliar sua capacidade doméstica de pesquisa, desenvolvimento, absorção, adaptação e difusão tecnológica. Não basta importar tecnologias concebidas para outras geografias econômicas. É necessário criar condições para que empresas, universidades e centros de pesquisa brasileiros desenvolvam competências próprias.

Esse ponto é decisivo na atração de investimentos internacionais. A instalação de capacidade produtiva no Brasil pode gerar produção, exportações e empregos qualificados, mas não implica automaticamente a internalização das atividades de maior intensidade de conhecimento. Centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D), desenvolvimento de processos, pesquisa de bancada, desenho de equipamentos, propriedade intelectual e funções estratégicas podem permanecer concentrados nas matrizes das empresas e nos sistemas de inovação dos países de origem.

Por isso, a discussão sobre investimentos e parcerias industriais precisa incluir condições para ampliar encadeamentos com fornecedores nacionais, fortalecer a base doméstica de conhecimento e criar trajetórias de aprendizado tecnológico. Transferência de tecnologia não deveria significar apenas trazer uma tecnologia desenvolvida no exterior para ser operada no Brasil. Deveria significar criar condições para que empresas, universidades e centros de pesquisa brasileiros absorvam conhecimento, desenvolvam competências próprias e avancem tecnologicamente a partir das capacidades que o país já possui.

A transição também envolve trade-offs. De novo, é preciso falar de renúncias e daquilo que não podemos seguir adotando para transitarmos de um momento a outro, de uma realidade a outra. 

Alguns são ambientais: a expansão de cadeias de baixa emissão pode pressionar território, água, biodiversidade e comunidades locais se não for orientada por critérios robustos de integridade ambiental. Outros são econômicos: a busca por maior agregação de valor pode aumentar custos no curto prazo, exigir infraestrutura complexa e demandar coordenação público-privada. Há ainda trade-offs sociais: mudanças tecnológicas e produtivas podem criar empregos qualificados, mas também deslocar trabalhadores, alterar economias regionais e aprofundar desigualdades se não vierem acompanhadas de formação profissional, proteção social e planejamento territorial.

Reconhecer trade-offs não é argumento contra a transição. É condição para que ela seja bem-sucedida. Transições reais envolvem conflitos distributivos, escolhas sob incerteza e prioridades concorrentes. O risco está em tratar a desfossilização como um processo puramente técnico, quando ela é também econômica, política, social e institucional.

Outro risco central é o lock-in: ficarmos presos no futuro às decisões que tomarmos agora, mid-transition. Decisões tomadas no meio da transição podem aprisionar o país em trajetórias de longo prazo desalinhadas com esse futuro que discutimos aqui. Infraestruturas, fontes energéticas, rotas industriais, padrões regulatórios, contratos de fornecimento e escolhas tecnológicas moldam oportunidades futuras. Se forem mal desenhadas, podem consolidar dependências, limitar a inovação, reproduzir especializações primárias ou criar ativos incompatíveis com o desenrolar do mercado e com metas climáticas mais ambiciosas.

De antemão, já podemos dizer com clareza que o Brasil deve evitar agora dois tipos de lock-in. O primeiro é o lock-in fóssil ou intensivo em carbono, associado ao fomento de novas estruturas produtivas que perderão competitividade em um mundo que precifica emissões de forma crescente. O segundo é o lock-in periférico verde: uma inserção internacional em que o país fornece energia limpa, minerais, biomassa ou insumos de baixa emissão, mas permanece distante das etapas de maior valor agregado, conhecimento, tecnologia e poder de mercado.

Esse segundo risco é mais sutil. Uma transição pode ser ambientalmente melhor do que o modelo anterior e, ainda assim, ser economicamente regressiva ou incompleta. O país pode reduzir emissões relativas, atrair investimentos e ampliar exportações sem alterar sua posição nas cadeias globais de valor. Pode tornar-se fornecedor de insumos verdes para a industrialização de outros países. Pode exportar vantagens naturais sem construir capacidades produtivas e tecnológicas próprias.

Evitar esse resultado exige uma estratégia industrial compatível com a economia contemporânea. Essa estratégia não cabe nem na velha lógica da verticalização integral nem na resignação diante de uma suposta vocação para exportar matérias-primas. 

Há um terceiro caminho: utilizar a transição climática e a reorganização das cadeias produtivas internacionais para construir uma inserção industrial mais sofisticada, negociada caso a caso, parceiro a parceiro e cadeia a cadeia. E usar o momento do mid-transition para colocar o barco a navegar nesta direção é fundamental. Agora é hora de ajustar essa rota na nossa carta de navegação.

A indústria contemporânea organiza-se por redes internacionais de produção. Cada país procura preservar empregos, capacidades tecnológicas, segurança econômica e segmentos considerados estratégicos. Por isso, não existe uma resposta única sobre qual produto o Brasil deve vender nem sobre qual etapa de cada cadeia deve ocupar.

O país deve buscar a máxima agregação de valor economicamente viável, reduzindo continuamente a distância entre aquilo que exporta hoje e o estágio mais avançado de transformação industrial que consegue conquistar de forma competitiva. Em algumas cadeias, isso significará exportar o produto final. Em outras, poderá significar avançar para um produto intermediário de maior valor agregado e menor intensidade de carbono. Em outras ainda, poderá envolver co-manufatura, investimentos conjuntos, transferência de tecnologia, complementaridade industrial ou divisão negociada de etapas produtivas.

Essa abordagem não substitui nem enfraquece setores brasileiros que já produzem bens e produtos finais. Ao contrário: esses segmentos devem ser fortalecidos, ampliar mercados e incorporar continuamente tecnologia e valor. A estratégia dirige-se, sobretudo, às cadeias em que o Brasil ainda exporta produtos brutos ou pouco processados e também a uma nova cadeia, onde a tendência inercial seria um posicionamento mais a montante. Nesses casos, o objetivo deve ser realizar no país o maior grau de transformação industrial que seja economicamente viável, ambientalmente consistente e aceito pelo (ou negociado com) o mercado internacional.

O ponto de partida é a pauta produtiva existente. O ponto de chegada não é fixo. Deve avançar sempre que novas condições tecnológicas, comerciais e geopolíticas permitirem. Defender que o Brasil possa ocupar, em determinadas negociações, etapas intermediárias de uma cadeia não significa defender uma especialização permanente em insumos. Significa reconhecer que o desenvolvimento industrial é um processo de construção progressiva de competências, mercados e capacidade produtiva. A flexibilidade está na estratégia comercial. A ambição industrial permanece.

Esse terceiro caminho também exige uma mudança na forma como o Brasil se relaciona com outros países. Não se trata apenas de exportar mais, mas de construir parcerias industriais internacionais. Alguns parceiros estarão dispostos a importar bens e produtos finais industriais brasileiros. Outros desejarão, por pressões econômicas e sindicais, manter parte da transformação em seus territórios. Nesses casos, o Brasil poderá fornecer componentes estratégicos ou produtos intermediários mais sofisticados, preservando espaço para avançar em novas etapas ao longo do tempo.

O sucesso dependerá da capacidade de compreender o que cada mercado demanda em um determinado momento, o que cada parceiro pretende preservar e onde existe espaço para ampliar a transformação industrial realizada no Brasil. Isso exige diplomacia econômica, inteligência comercial, negociação tecnológica e coordenação entre setor público e privado.

Olhar para o passado também importa muito no mid-transition. No investimento que nossos antepassados, avós e pais fizeram para que o Brasil tivesse hoje uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e opções de combustíveis como o etanol. A transição também deve incorporar de forma mais ambiciosa a geografia econômica brasileira. A disponibilidade de energia renovável, biomassa, resíduos agrícolas e florestais, biodiversidade, recursos minerais e base agroindustrial abre possibilidades que ainda não estão plenamente incorporadas ao debate nacional sobre desfossilização.

Em particular, há pouca compreensão do potencial das biomoléculas como insumos industriais. Biomassa costuma ser tratada sobretudo como fonte de energia ou como extensão da atividade agrícola. Mas moléculas de origem biológica podem constituir a base de uma nova geração de cadeias químicas, energéticas e de materiais. Resíduos urbanos, agrícolas e florestais, etanol, óleos vegetais, lignina, biogás e outras matérias de origem biológica podem ser transformados em combustíveis sustentáveis, químicos de base biológica, fertilizantes, polímeros, materiais avançados e diversos outros produtos de alto valor agregado.

O potencial econômico das biomoléculas só se converte plenamente em plataforma de transformação produtiva quando articulado às capacidades da indústria de transformação e do sistema de inovação. A estrutura produtiva e tecnológica é o meio para converter uma vantagem natural em vantagem competitiva. Sem indústria, conhecimento e escala, a biomassa permanece recurso. Com estratégia, pode tornar-se plataforma tecnológica.

O mesmo raciocínio vale para minerais críticos, hidrogênio renovável, combustíveis sustentáveis, aço de baixa emissão, fertilizantes verdes, soluções de armazenamento, redes elétricas, equipamentos industriais e tecnologias digitais aplicadas à eficiência energética e à rastreabilidade. Mas novamente: podemos partir do que nos favorece? Pergunto: quais capacidades o Brasil deseja construir a partir do que possui? 

Essa distinção é essencial para evitar transições incompletas. Uma transição incompleta ocorre quando o país avança em algumas dimensões, mas permanece vulnerável em outras. Pode reduzir emissões sem elevar complexidade econômica. Pode atrair investimentos sem desenvolver tecnologia. Pode expandir renováveis sem planejar redes, armazenamento e licenciamento. Pode preservar ativos naturais em alguns territórios enquanto pressiona outros. Pode gerar crescimento sem distribuir oportunidades. Pode exportar mais sem aumentar autonomia estratégica.

Também há risco de transições regressivas. Elas ocorrem quando políticas climáticas, ainda que bem-intencionadas, reforçam desigualdades, deslocam atividades para regiões com menor regulação, concentram ganhos em poucos atores ou impõem custos desproporcionais a trabalhadores, consumidores e territórios vulneráveis. Uma transição socialmente frágil tende a perder legitimidade política. E uma transição sem legitimidade dificilmente se sustenta.

Por isso, a transição brasileira deve ser orientada por quatro princípios. O primeiro é integridade ambiental. A economia de baixas emissões precisa entregar redução real de emissões, proteção da biodiversidade, rastreabilidade, uso responsável do solo e respeito às salvaguardas sociais. Não basta trocar a fonte energética se a nova cadeia produzir danos ambientais ou sociais relevantes.

O segundo é sofisticação produtiva. A vantagem verde deve ser usada para ampliar valor agregado, produtividade, inovação e complexidade econômica. Exportar menos carbono é importante. Exportar mais conhecimento, tecnologia e capacidade industrial é decisivo.

O terceiro é seletividade estratégica. O Brasil não precisa internalizar tudo, nem deve tentar reproduzir modelos de industrialização de outras épocas. Mas precisa escolher deliberadamente quais capacidades construir, quais dependências reduzir e quais segmentos disputar. A seletividade deve combinar critérios econômicos, tecnológicos, climáticos e sociais.

O quarto é coordenação institucional. A transição exige políticas públicas consistentes, previsibilidade regulatória, financiamento, infraestrutura, formação profissional, ciência, tecnologia, diplomacia econômica e mecanismos de avaliação. Sem governança, a oportunidade se dispersa.

O mercado doméstico, embora fundamental, dificilmente sustentará sozinho um novo ciclo de industrialização, verde que seja. Se o Brasil pretende elevar sua complexidade econômica, ampliar produtividade, desenvolver tecnologia e gerar empregos qualificados, precisará disputar mercados internacionais de bens, materiais, insumos e soluções de baixa emissão.

Isso exigirá política industrial, infraestrutura, financiamento, inovação, formação profissional, previsibilidade regulatória e diplomacia econômica. Exigirá também políticas públicas orientadas por resultados. Recursos públicos e incentivos devem priorizar setores e projetos capazes de combinar, ao mesmo tempo, competitividade internacional, transformação produtiva, aprendizado tecnológico, empregos qualificados e redução consistente de emissões.

No mundo das cadeias globais de valor, em que o modelo de industrialização não é mais o dos anos 1970 e a geopolítica é outra, a estratégia não deve ser maximizar indiscriminadamente o conteúdo nacional nem exigir que etapas de P&D sejam realizadas aqui. Deve ser usar as oportunidades de investimento abertas pela transição para fortalecer deliberadamente os pontos da estrutura produtiva e do sistema de inovação capazes de ampliar a autonomia tecnológica e a capacidade futura de competir.

Isso é diferente de fechar a economia. E também é diferente de simplesmente atrair capital porque temos energia limpa, minerais ou biomassa. A questão não é escolher entre autarquia e passividade. A questão é construir capacidade de negociação, aprendizado e avanço progressivo.

A transição climática redefine os critérios de competitividade internacional. O Brasil deve usar essa mudança para ampliar continuamente sua complexidade econômica e sua capacidade de gerar valor. Sua inserção nas cadeias globais deve ser dinâmica, negociada e analisada caso a caso, orientada pela máxima agregação de valor economicamente viável.

Essa oportunidade não permanecerá aberta indefinidamente. Outros países já estão implementando políticas industriais, atraindo investimentos, protegendo mercados e disputando os segmentos mais promissores da economia de baixo carbono. A janela brasileira existe, mas pode se fechar se o país não transformar vantagem natural em estratégia industrial.

O Brasil não precisa escolher entre produzir tudo internamente e permanecer fornecedor de produtos primários. Tampouco precisa replicar modelos construídos para outras realidades. Pode construir um outro caminho: utilizar suas vantagens verdes para negociar uma inserção industrial progressivamente mais sofisticada, fortalecendo o que já produz competitivamente e agregando valor ao que ainda exporta de forma bruta ou pouco processada.

Industrializar a vantagem verde significa transformar recursos, energia limpa e baixa intensidade de carbono em capacidade tecnológica, empregos qualificados, renda e influência econômica. Significa reconhecer que a vantagem verde é ponto de partida, não estratégia suficiente de desenvolvimento.

No meio da transição, cada passo dado importa demais, mais do que importava no início do processo. Um passo não mudará o caminho daqui a um ano, para a próxima negociação de diplomacia climática. Um passo agora será definidor por décadas à frente. Para evitar uma transição incompleta ou regressiva, o Brasil precisa combinar ambição climática com ambição produtiva, integridade ambiental com sofisticação industrial, abertura internacional com construção deliberada de capacidades.

Não precisamos internalizar tudo das cadeias que usam nossas vantagens em matéria-prima e em energia limpa, mas precisamos escolher deliberadamente quais competências construir e quais dependências estratégicas reduzir. 

Recebido: 17 de agosto de 2026

Aceito para publicação: 25 de agosto de 2026

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