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Patriotismo à moda soviética

10/05/2014

O patriotismo russo e soviético foi o convidado de honra levado pelo presidente Vladimir Putin às celebrações do dia que lembra a vitória da União Soviética contra a Alemanha nazista, em 1945, data que lhe deu motivo para visitar pela primeira vez a península da Crimeia desde que ela se separou da Ucrânia e foi anexada à Federação Russa. Depois de participar do tradicional desfile militar na Praça Vermelha, em Moscou, Putin seguiu para Sebastopol, sede da frota russa do Mar Negro, onde assistiu ao sobrevoo de caças e discursou para militares e civis. O gesto acirrou as tensões entre o governo de Kiev e os separatistas pró-russos do leste e do sul ucraniano, e foi reprovado por líderes ocidentais .

Na concorrida parada no coração de Moscou, falando para veteranos da Grande Guerra Patritótica — nome pelo qual é chamada no país a Segunda Guerra Mundial —, o presidente exaltou a "vontade de ferro do povo soviético, seu destemor e vigor", que "salvaram a Europa da escravidão". Rodeado por reminiscências da extinta União Soviética, como as bandeiras vermelhas com a foice e o martelo que simbolizam o comunismo, Putin fez a ponte entre passado e presente, saudando "a força triunfal do patriotismo russo" para arrematar: "Aqueles que derrotaram o fascismo nunca devem ser traídos".

Na Crimeia, o chefe de Estado inspecionou dezenas de navios na base de Sebastopol e exibiu o poder bélico russo, com uma apresentação aérea da qual participaram bombardeiros supersônicos Tupolev TU-22 e caças Sukhoi Su-27 e MiG-24. "O ano de 2014 vai entrar para a história como aquele em que as pessoas que vivem aqui (na Crimeia) decidiram firmemente estar com a Rússia, confirmando sua fidelidade à verdade histórica e à memória de nossos ancestrais", declarou.

"Provocação"

O governo de Kiev, que não reconhece a anexação da península, denunciou a visita de Putin como uma "flagrante violação da soberania da Ucrânia" e uma prova de que o Kremlin "não quer buscar uma solução diplomática" para o impasse separatista. O argumento foi endossado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, que considerou que o gesto do líder russo "provocativo" e destinado apenas a "exacerbar as tensões". "Não aceitamos a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia", reiterou Laura Lucas Magnuson, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional.

Angela Merkel, chefe do governo alemão, lamentou o anúncio do desfile na Crimeia e considerou que Putin "fez pouco para contribuir com a dissolução da perigosa situação na Ucrânia". Catherine Ashton, chefe da diplomacia da União Europeia, censurou o presidente russo por ter usado o Dia da Vitória "dar visibilidade à anexação ilegal". O secretário-geral da Otan (aliança militar ocidental), Anders Fogh Rasmussen, classificou a visita como "inapropriada". "Nós ainda consideramos a Crimeia como território ucraniano, e as autoridades ucranianas não convidaram Putin para visitar a região", ponderou.

Leonardo Paz, cientista político e coordenador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), avalia que a postura "provocativa" de Putin tinha o objetivo de mostrar que a anexação da península é irreversível. "A exibição militar em Sebastopol foi grandiosa e o povo acompanhou empunhando bandeirinhas russas. Putin deixou bem claro que ali é o ‘seu pedaço' e que a anexação já é parte da história", observa.

O cientista político observa que a visita deve dar fôlego aos separatistas do leste, às vésperas da realização de um referendo sobre a autonomia das regiões de Donetsk e Lugansk. Paz acredita que o resultado da consulta deve ser favorável aos militantes pró-Moscou, mas com margem menor que a registrada no plebiscito da Crimeia. "Tenho minhas reservas, porém, quanto à participação das pessoas que são contra a separação. Não sei se elas vão ter liberdade e segurança para votar e manifestar sua posição", diz o estudioso, que considera quase inevitável a ocorrência de conflitos durante a votação.

Matéria publicada originalmente no jornal Correio Braziliense, em 10/05/2014.



Centro Brasileiro de Relações Internacionais