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Economia de guerra

01/08/2014

Gabriel Baldocchi

Na quinta-feira, 31, a companhia alemã de artigos esportivos Adidas alertou seus investidores de que terá de acelerar o fechamento de lojas na Rússia para proteger a rentabilidade dos negócios. O motivo é o acirramento das tensões na região, após uma nova onda de sanções econômicas impostas aos russos por EUA e União Europeia. Da mesma forma, na semana anterior, a Visa admitiu que as divergências entre os ex-oponentes da Guerra Fria terão um impacto em seus resultados: projetou uma desaceleração do lucro na Rússia neste trimestre.

“Estamos presos no meio das políticas de EUA e Rússia”, afirmou Byron Pollitt, diretor financeiro da empresa de cartões de crédito. Se as escaramuças atuais estão longe de se transformar em novo conflito armado na região, como é consenso entre os analistas, deixam pelo caminho feridas nas veias dos negócios e mercados, que, aos poucos, vão sendo conhecidas e podem influenciar o comércio exterior do Brasil. Os novos embargos das potências ocidentais ao governo de Vladimir Putin envolvem três áreas centrais: financeira, militar e de tecnologia para o setor energético (gás e petróleo).

Trata-se da maior punição econômica imposta à Rússia desde o desmoronamento do bloco socialista nos anos 1990, numa tentativa de pressionar Putin a abandonar o apoio aos rebeldes na região da Crimeia. “Não é uma nova Guerra Fria”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na terça-feira 29, ao anunciar as sanções. “É uma questão muito específica relacionada à falta de vontade da Rússia em reconhecer que a Ucrânia pode trilhar o seu próprio caminho.” A tensão se agravou ainda mais depois da queda de um avião civil que matou 298 pessoas na Ucrânia, em meados de julho.

Os EUA acusaram a Rússia de fornecer os mísseis que acertaram a aeronave. Ao contrário da União Europeia, que, sob a liderança da premiê Angela Merkel, relutou, de início, em adotar as medidas por causa de sua maior integração com os russos, os EUA já haviam encontrado uma forma de punição. A primeira rodada de sanções americanas fora anunciada quando Putin estava no Brasil, para o encontro dos BRICS, no mês passado. A visita ao País selava um novo marco nas relações bilaterais com os russos, em que a presidenta Dilma Rousseff estabelecia uma meta informal de dobrar as trocas comerciais para US$ 10 bilhões, ante os US$ 5,6 bilhões de 2013.

O sinal de maior proximidade num momento das sanções comerciais abre uma oportunidade ao Brasil. “Caso se confirmem os embargos impostos pela Comunidade Europeia e pelos Estados Unidos, os negócios com a Rússia vão se ampliar”, afirma Gilmar Menezes, diretor da Câmara de Comércio Brasil-Rússia. “Temos notado um crescimento inédito de empresas brasileiras de olho em parcerias comerciais.” As principais áreas de interesse são agronegócio, petróleo, química e tecnologia. Para Menezes, os embargos ajudarão a alcançar mais rapidamente a meta proposta por Dilma, num prazo de dois anos.

Fontes do governo brasileiro acreditam em um impacto inicial nas vendas de carnes, com os russos transferindo suas compras da Europa para o Brasil. O item é hoje o mais relevante na pauta de exportações para o parceiro – somou US$ 1 bilhão no primeiro semestre. A Rússia, porém, ocupa apenas a 15ª colocação no ranking dos principais destinos das vendas do País ao Exterior. Grupos brasileiros que apostaram no potencial russo no passado agora se beneficiam. Para a fabricante de ônibus Marcopolo, que opera em parceria com uma empresa local, as sanções vão acabar reduzindo as importações da Europa.

“A Rússia importa muitos ônibus usados da Europa”, diz Ruben Bisi, diretor corporativo de estratégia e marketing da Marcopolo. “Se não tiver mais essa opção, o mercado interno deve ficar mais aquecido para os veículos novos.” A fabricante também espera um aumento de encomendas a partir de um programa de incentivos públicos para a compra de ônibus movidos a gás recém-anunciado pelo governo russo, como parte do esforço para dar vazão à produção energética do país, assim como o acordo de fornecimento fechado com a China. Se, por um lado, o alinhamento com a Rússia pode render uma ampliação de negócios naquele país, por outro, há quem tema risco de ameaçar relações com outros parceiros.

“O que pode acontecer é que multinacionais brasileiras passem a ser penalizadas por manter negócios com a Rússia”, afirma Geraldo Nagibi, professor de relações internacionais da PUC-SP. Para o especialista, as sanções de EUA e da União Europeia são um instrumento de resultado questionável, com poucos casos de sucesso na história mundial. O Brasil também tem uma posição crítica em relação à imposição das sanções unilaterais. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, quando necessárias, as medidas devem ser implementadas no âmbito de um organismo multilateral, como as Nações Unidas, que pode avaliar melhor seu impacto na população civil.

Faixa de Gaza

Não são só as tensões envolvendo a Rússia e a Ucrânia que vêm ameaçando a ordem econômica global. O recrudescimento da violência na Faixa de Gaza ganhou atenção na pauta de líderes de todo o mundo, servindo como uma fonte adicional de incertezas para os mercados. “A geopolítica voltou para o meio do palco”, afirma o economista Roberto Fendt, diretor-executivo do Centro Brasileiro de Relações Interna­cionais (Cebri). “Tenho a impressão de que os conflitos entre Israel e os palestinos possam ocupar mais as cabeças de quem toma decisões no Ocidente.

A região do Oriente Médio é um lugar bom para contágio.” Fendt, contudo, diz que não houve, até agora grandes especulações nas cotações nos preços mundiais, em especial do petróleo, um indicativo de que os investidores ainda entendem as questões como isoladas. A intensificação dos conflitos entre as partes nas últimas semanas resultou na morte de 1.300 palestinos e 53 israelenses, segundo o balanço da Organi­zação das Nações Unidas (ONU) divulgado na quinta-feira 31. Em meio a tentativas de cessar-fogo, a violência vem sendo condenada por potências ocidentais.

O Brasil ganhou destaque em relação ao tema por ter questionado o uso desproporcional da força por parte de Israel. Autoridades israelenses responderam imediatamente, tentando desqualificar a relevância do Brasil na governança mundial ao chamar o País de “anão diplomático”. Para os analistas, os eventos ainda não têm força para provocar algum impacto prático nas empresas brasileiras que vendem à região, mas podem causar um mal-estar internacional pela posição mais dura em relação a Israel.

“Vejo um constrangimento na área externa. O que foi dito é que o Brasil é irrelevante. É preciso prestar atenção quando um diplomata fala que é irrelevante”, afirma Eduardo Mekitarian, professor de relações internacionais da Faap. “O Brasil deveria ser mais claro para não causar constrangimento, o que pode ter impactos.” Ainda que a possibilidade de um conflito militar esteja mais distante hoje, a economia da guerra já deixa suas vítimas pelo caminho.

Matéria publicada originalmente no ISTOÉ Dinheiro, em 01/08/2014.



Centro Brasileiro de Relações Internacionais