CEBRI - Reordenamento Global, Crise do Multilateralismo e Implicações para o Brasil

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Reordenamento Global, Crise do Multilateralismo e Implicações para o Brasil

28/10/2020

Policy Note

Reordenamento Global, Crise do Multilateralismo e Implicações para o Brasil

 

Maria Regina Soares de Lima
Professora do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (IESP-UERJ)

Marianna Albuquerque
Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (IESP-UERJ)

 

É comum lermos nas atuais análises internacionais a afirmação de que o multilateralismo está em crise. A pandemia e a dificuldade de se produzir ação coletiva global para lidar com a crise sanitária desvelaram um fenômeno que vinha em gestação nos anos anteriores, ilustrados pela paralisia decisória nas organizações multilaterais, derivadas do aumento da competição entre grandes potências e da emergência de novos polos de poder, e pelas contestações da legitimidade e da eficácia destes instrumentos coletivos. Entretanto, muitas dessas interpretações pecam por generalizações e falta de profundidade analítica sobre o que é o multilateralismo, quais as suas variações, sobre qual de suas formas de manifestação que o diagnóstico da crise se aplica, e como as instabilidades sistêmicas afetam, de forma diferente, Estados com perfis de inserção internacional igualmente diferenciados. Nessas análises, os percalços do multilateralismo são analisados de forma análoga à da crise sistêmica, como se os desafios multilaterais reproduzissem automaticamente aqueles que enfrentam a ordem global, encarada de forma mais ampla.

Nosso argumento é que a crise do multilateralismo precisa ser analisada a partir de lentes próprias, uma vez que o conceito de multilateralismo pressupõe formas de relacionamento que não são idênticas às que prevalecem no sistema. Enquanto o sistema internacional é caracterizado como uma estrutura anárquica, na qual as assimetrias de poder se impõem aos interesses dos países menores, as organizações multilaterais operam a partir de princípios e normas gerais que deveriam se sobrepor aos interesses de todos os países e buscam garantir a coordenação entre desiguais, a inclusão, a representação e a reciprocidade, mesmo que a implementação das mesmas não seja perfeita. Por ser um ambiente que reduz custos de transação e permite a mitigação de certas assimetrias, o multilateralismo foi interpretado, historicamente, como um mecanismo estratégico para países intermediários, como o Brasil. Com isso, a convergência da crise do multilateralismo com as mudanças de orientação da política externa brasileira geram uma situação sui generis para a análise da inserção internacional do país.

Para apresentar aportes iniciais que fundamentem a identificação de possíveis respostas (e também de novas perguntas), este texto busca identificar a gênese e as implicações da atual crise do multilateralismo. Partimos da premissa que a origem das inúmeras contestações que as organizações multilaterais sofrem está relacionada à falta de legitimidade decorrente da inadequação do arcabouço institucional liberal-ocidental do pós-Segunda Guerra a um novo mundo, com novos polos de poder e maior diversidade identitária e ideológica.

Para tal, este texto está organizado da forma como se segue. Inicialmente, apresentamos um diagnóstico da crise global de forma mais geral. Em seguida, uma análise mais específica do que se entende por crise do multilateralismo. Finalmente, apresentamos as possíveis implicações para o Brasil.

 

Leia na íntegra aqui

 



Centro Brasileiro de Relações Internacionais